A política, já sabiam os antigos, nunca foi atividade para ser exercitada nos jardins dos claustros, habitados por santos. Em algum momento incerto do passado, como lembra, em artigo, o professor Oliveiros S. Ferreira, sociólogo da USP e diretor do ‘‘Estadão’’, recorrendo a episódios da Internacional Socialista, narrados por Victor Serge, já chegou a ser praticada em ágoras, reunindo sábios. Os mais cáusticos, porém, têm encontrado razões sólidas até para atribuir aos lupanares a condição de sede mais apropriada para as negociações.
Estes podem ser acusados até de inimigos da democracia, mas estiveram bem perto da razão diante de todos os fatos ocorridos na semana passada, particularmente na tarde de quinta-feira, que, apropriadamente, o editorialista do ‘‘Jornal do Brasil’’ qualificou de ‘‘negra’’. Pois nela, a elite constitucionalista da Câmara dos Deputados, reunida na Comissão de Constituição e Justiça, propôs absolver o réu confesso de aluguel do próprio mandato, Chicão Brígido (PMDB-AC), e cassar a vítima e denunciante do delito, sua suplente, Adelaide Neri (PMDB-AC). Enquanto isso, os varões de Plutarco do Senado empurravam os próprios privilégios previdenciários com a barriga e cediam a pressões corporativistas dos juízes. O único comentário possível a tal conjugação de vilanias só pode ser o desabafo da âncora do noticiário da Rádio Eldorado de S. Paulo, Roseli Tardelli: ‘‘Pelo amor de Deus!
Mas - questionará, com razão, o leitor atento - legislar em causa própria, atender aos rogos de corporações, até para não ter de explicar os próprios privilégios, e perdoar o colega, querendo dizer que a denunciante de sua falha ética ‘‘não sabe o que faz’’, só porque não tem mandato próprio, bastariam para confundir política com prostituição? Se a dúvida poderia ser razoável em relação à matinê da quarta, a matinal da quinta a terá eliminado. Afinal, mesmo num prostíbulo muito permissivo, a discussão estabelecida entre o líder do governo na Câmara, Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA), e seu mais recente desafeto, Carlos Apolinário (PMDB-SP), não teria sido admitida ou terminaria em duelo sangrento.
O mais frouxo dos gigolôs não permitiria a acusação de não cumprir seus compromissos, imputada pelo relator da nova Lei Eleitoral, segunda personagem da briga, ao filho do presidente do Congresso Nacional. Da mesma forma, a menos orgulhosa das cafetinas não levaria para casa o desaforo da paternidade anônima, farpa que o líder atirou de volta contra o relator, que, aliás, pertence à bancada evangélica, mas mostrou não estar disposto a oferecer a outra face ao agressor. A entrada da terceira personagem, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) em pessoa, em nada elevou o nível da baixaria, que continuou circulando em esgotos morais: ‘‘Ladrão, corrupto, chantagista’’.
Ou seja, parlamentares se acusaram mutuamente de furto e chantagem e até agora, ao que se sabia, nada foi feito de concreto para descobrir se alguém tem razão ou, o que não seria improvável, se os dois lados não estariam certos. Como eles têm representação da sociedade para escrever as normas que regem o convívio civilizado, é o caso de se perguntar até quando o cidadão se sentirá obrigado a respeitá-las, se ninguém suporta o mau cheiro do laboratório onde elas são aprovadas.
Isso é pesado, mas, para justificar o título deste artigo, convém lembrar que a briga verbal de lupanar, travada entre os três varões da República, não ocorreu pela nobre causa da defesa da coisa pública nem dos interesses do eleitor. Apolinário armou o banzé todo para canalizar mais dinheiro público para os bolsos sem fundos dos partidos políticos, Luís Eduardo trincou os dentes para facilitar a reeleição do chefe supremo, que a tudo assistiu, pacífica e serenamente, como é de seu feitio. Como aquele cidadão, que caiu, íntegro e lépido, do décimo andar do edifício e, ao ser questionado sobre a causa de tamanha multidão na calçada, respondeu que não sabia, pois acabava de chegar.
Como diz o ‘‘Efegac꒒ dos humorísticos da TV, ‘‘assim não dá!’

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