Política, cultura e voto
Estou já, há muito tempo, ouvindo a propaganda eleitoral na esperança de comentar uma eventual proposta para a área da cultura de algum candidato. Até hoje, nada. Mas um determinado candidato tem me intrigado. Há tempos o ilustre aspirante à prefeitura vem repetindo a seguinte frase: Não acredite naqueles candidatos que usam da palavra para faltarem com a verdade. Muito bem. Vamos nos deter nesta afirmativa. Analisando a quantidade de palavras usadas, 13 delas, para dizer apenas não acredite em mentirosos conclui-se por um exagero verborrágico. Até aí tudo bem, entendo-o remido neste particular. Afinal, em política é comum se recorrer a cascatas de palavras como auxiliar de retórica. Mas cabe a análise do vazio de significado.
Pedir para não acreditar em mentirosos é um conselho absolutamente dispensável. Temos aí, um monumento à redundância, tipo não beba água quando não estiver com sede. O candidato acrescenta ainda: ...Acredite no que seus olhos vêem e seus ouvidos ouvem... e por aí vai. Tenta dar um verniz culto no seu discurso, numa psicologia barata, de almanaque. Bem, deste episódio lamentável deduzo duas conclusões.
Muitos candidatos reclamam do pouco tempo que dispõem na TV para levar suas propostas ao eleitorado. Evidentemente, com tamanha redundância, um dia inteiro de vídeo seria insuficiente. Assistir propaganda eleitoral na esperança de ouvir propostas para cultura, tem sido inusitado.
O que os políticos querem? Voto, sem dúvida. Se nenhum político discorre sobre cultura, somos levados a pensar que cultura não dá voto. Será? Sobre isto me ocorre um testemunho pessoal a relatar. Em minhas atividades didáticas pelo interior do Paraná, tenho observado, junto com meus colegas músicos, o entusiasmo inexcedível dos alunos.
É comovente ver aquela quantidade enorme de pessoas que nos esperam ávidos por música, por arte, enfim, por cultura. Dá para ver nos olhos dos cidadãos a expectativa evidente de que naqueles dois ou três dias de curso intensivo, passarão por uma experiência forte e marcante para o resto de suas vidas. Cultura redunda em maior auto-estima. Especificamente, a arte dá mais compreensão de nós mesmos e do mundo que nos cerca. Todos, minimamente experimentados na vida, já vivemos esta experiência. Cidadãos precisam tanto de cultura como de emprego, saúde e transportes e aí está o que poderia ser o diferencial de campanha.
Mesmo num país onde 70% do eleitorado não têm curso superior, o tema cultura é acessível. Arte não depende necessariamente de escolaridade. As carências das cidades já conhecemos, como também, as soluções, sempre parecidas no discurso político. Portanto, exorte-se aos candidatos propostas na área da cultura. Proponham mais acesso cultural às camadas carentes. O desafio está na habilidade verbal para discorrer sobre cultura, sem dúvida, de certa complexidade, no horário eleitoral. Nada que uma boa assessoria não resolva.
Sou capaz de afirmar que se algum candidato assim o fizesse com um mínimo de discernimento, atestando a importância do teatro, da música, enfim das artes na vida de cada cidadão, seria um projeto a ganhar bons votos. Cultura artística é barato e o benefício, enorme.
Subestimar a inteligência do eleitor com redundâncias e obviedades não é bom. Sem querer ser demagógico, ouvir a voz do povo é importante. Mas se mesmo com a mão em concha atrás do ouvido o candidato não conseguir ouvir nada, e continuar insensível a tais reclamos, lembre-se daquela música que fez muito sucesso e dizia: ...A gente não quer só comida, a gente quer comida diversão e arte...
- SEBASTIÃO INTERLANDI JÚNIOR é músico em Curitiba





