Política cambial, o atoleiro do real
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 19 de junho de 1997
Fernando Ribas Carli 
Não foi por falta de aviso. A teimosia em manter o real supervalorizado diante do dólar, a irresponsabilidade de uma abertura sem qualquer critério deu no que deu: recessão, desemprego e um monumental rombo das contas externas. O cenário de hoje é muito parecido com o que viveu o México de 1994 antes da derrocada. Nossas importações representam mais de 62% das exportações. O alerta já foi dado pelos grandes consultores internacionais. Enquanto isso, nossos PhDs, guiados pelo guru Gustavo Franco, insistem em pagar para ver.
O otimismo suicida que a propaganda oficial continua vendendo vai custar caro ao consumidor brasileiro. O corte no financiamento de 360 dias para as importações, o fim do parcelamento para os cartões de crédito são só o prenúncio de outras medidas, muito mais duras, que começam ser postas em fervura pelos alquimistas tucanos. E devem ser antecipadas ainda para este semestre para que possam ser aliviadas no calor da campanha da reeleição de FHC em 1998.
Desde que assumimos nosso mandato parlamentar, fomos assíduos na tribuna da Câmara, nos debates em comissões técnicas e em entrevistas, alertando para os riscos de destruição do parque industrial nacional - desestimulado de um lado pela sobrevalorização do real e manietado pelas taxas de juros. Lembramos que o PDT, desde a primeira edição da Medida Provisória da URV e depois do real, em junho de 1994, apresentou emendas flexibilizando o câmbio com o objetivo de manter a competitividade de nossas empresas no mercado mundial. O exemplo argentino era eloquente demais, apenas nossos acadêmicos palacianos preferiram ignorá-lo.
O que angustia os setores produtivos é que essas medidas vão acentuar ainda mais a recessão. A conta não será paga apenas pelo consumidor, mas pelo desempregado, pelo pequeno e médio empresário que vai ver sua atividade naufragar definitivamente. Vivemos uma espécie de fim de festa, em que mesmo com juros escorchantes, inimagináveis em qualquer sistema econômico, a classe média - baixa e alta - transformou suas economias em mordomias caribenhas ou em televisões de 29 polegadas. Os pobres também compraram mais, diz a propaganda oficial. Sim, o pobre comprou seu liquidificador e até sua primeira geladeira, com um confisco de pelo menos 8% ao mês. Um escárnio. Já o desempregado e os excluídos de sempre ficaram com as migalhas. Como sempre.
Na prancheta dos gênios da equipe econômica o Brasil real, aquele que produz, que quer gerar riquezas e distribui-las com empregos, não passou de um campo de provas. Tudo para aprovar este milagre chamado âncora cambial, assentada no tripé: abertura comercial, valorização cambial e juros astronômicos para atrair o capital especulativo internacional. Quem ousou falar em retomada de desenvolvimento, em riscos de recessão foi chamado de catastrofistas, neobobo, caipira. Isso pelo próprio presidente da República. Imaginem o que dizem seus áulicos...
Agora já não dá mais para disfarçar. O grande vilão do déficit público, que sempre foi o servidor, há três anos tem salário congelado e a abertura comercial tão decantada pelo nosso viajante presidente resultou no maior rombo da história econômica. Só de janeiro a abril deste ano o saldo negativo da balança foi de US$ 4 bilhões. Somado aos US$ 6,7 bilhões do balanço dos chamados serviços (fretes, juros, remessas de lucros das multinacionais, turismo etc) e temos um rombo de US$ 10,7 bilhões em apenas quatro meses.
O quadro é de terra arrasada. As remessas de lucros e dividendos pagos pelas filiais das multinacionais subiram de US$ 250 milhões para US$ 1,8 bilhão. Um salto de 620% em apenas quatro meses. Isso não é catastrofismo, como acusa o presidente, é realismo. Também não é verdade quando os governistas insistem que a abertura é inevitável, que esta é uma tendência mundial. Talvez até seja, embora o noticiário econômico gaste quase a totalidade do seu espaço para noticiar crescentes guerras econômicas ora Japão x EUA, ora EUA x Comunidade Européia, ora França x Espanha e etc.
Mas por que exatamente nós, com um parque industrial incipiente, frágil, com baixa produtividade, tinha então de ser exposto às feras assim, sem qualquer condescendência? Que espírito de fraternidade com os desempregados da Europa, dos EUA, da Ásia e do Japão nos levou a baixar nossas tarifas de importação a uma média de 2%, enquanto a Coréia mantém rígidos 20% e o Japão pratica, em média, tarifas de 15%? Quanto aos Estados Unidos a conversa é bem diferente. Além de taxarem nossos produtos em até 125%, a regra lá é bem explícita: só entra produto que não contrarie os interesses da indústria local. Em nome disso, produtos nossos como frango ou a carne bovina foram rejeitados naquele mercado e o aço plano sofre sanções que tornam inviável sua exportação.
Esses conflitos ficaram ainda mais expostos no III Encontro das Américas, realizado no início do mês em Belo Horizonte, onde os EUA deixaram bem claro que querem acertar logo as regras da Alca (Área do Livre Comércio das Américas), desde que prevaleça o seu interesse nacional, o interesse de seu parque produtivo. Se os negociadores brasileiros quiseram se exibir como bons moços, os empresários reagiram com força à prepotência do Grande Irmão do Norte.
Esta é uma reação positiva, mesmo que ela não contenha nenhum vislumbre patriótico. Na mundialização das relações comerciais, o que continua ditando as regras ainda é o lucro. E não pode haver lucro com uma moeda sobrevalorizada, com juros estratosféricos e regras que funcionam com fole de gaiteiro, fechando e abrindo ao sabor dos humores dos gênios palacianos. E mais: o empresariado nacional não tolera mais é ser chamado de incompetente, explorador do consumidor, incapaz de absorver tecnologia e aumentar a produtividade, enfim, de ser o vilão da dita modernidade por ministros e até pelo presidente da República.


