Política antitruste e direitos humanos
Quando tudo indicava que o governo federal tinha em mira dar um novo tom à aplicação da lei antitruste, colocando um jurista como presidente do Cade, nova marcha a ré. O retrocesso é evidente quando se percebe pretender-se modificar a Lei nº 8884/94, mutilando-a, à guisa de agilizar os processos, transformando o Cade numa agência (melhor que digam agency). A finalidade da proposta, anunciada há pouco mais de um mês, é adaptar a lei antitruste aos interesses do mercado, sob a névoa opaca de proteger o consumidor.
Agredindo os mais elementares princípios democráticos, a tarefa foi passada a tecnocratas, unicamente. Deixaram-se de lado, uma vez mais, organizações de classe, sindicatos, a OAB e outras tantas que, bem ou mal, representam as últimas trincheiras contra o arbítrio imperante, mascarado de democrático. Tanto foi a revolta que grassou nos remanescentes focos de patriotas que defendem as terras brasis, que um antigo conselheiro do Cade classificou a transformação do Cade em agency como espúria, inusitada e insólita.
Na verdade, o que há por detrás de tudo isso é a predominância dos interesses egoísticos (leia-se materiais) sobre os cidadãos, sobre as pessoas, sobre os brasileiros. Há uma opção, que vicejou na mídia: macaqueia-se, alcunhando o cidadão de contribuinte (colando o jargão tax payer), para merecer retribuição em serviços pelo que paga.
Na verdade, estamos esquecendo que há uma quantidade enorme de pessoas cidadãos brasileiros que vivem como ignorados, embora paguem. De outra banda, há uma minoria que vive sonegando às escâncaras, beneficiando-se da política neoliberal. Para manter o status quo, o governo incentiva a participação privada, para que ela, através de joint ventures ou outros artifícios, com grupos transnacionais, sem pátria, monitorem o que restou não ser leiloado.
A forma mais adequada é quebrar o vínculo com a nacionalidade, transformando valores espirituais e culturais em meros objetos lúdicos, grifados com a estampa de boutiques. Giorgio Pressburger publicou, na Itália, recentemente, o romance De vento e de fogo (Einaudi, 123 páginas, L 24.000), que cuida da condição dos judeus na diáspora. Resumidamente, diz ele que o presente seria um terrível deserto sem os traços do passado. Não importa se, no passado, se abriguem sombras, horrores, enganos, pragas incuráveis. A própria recordação vai levada avante se se quer andar à procura do mundo e de si mesmo e não arriscar-se com a aridez do deserto, do vazio e do esquecimento. Em suma: sem memória, o presente nada mais é do que um vazio profundo.
Pois assim é que o governo federal vem procedendo desde que, ao adotar o modelo neoliberal, cortou todos os vínculos da nacionalidade com a terra, transformando o brasileiro num ficto cidadão do mundo. Cultiva a idolatria do mercado e venera o consumismo pelo prazer sensorial. Esmagam-se os valores que construíram a nação brasileira, embora não perfeitos, mas candentes de dignidade.
Até os mais ardorosos defensores da OMC começam a perceber que estamos chegando à beira do caos, como Daniel K. Tarullo, professor da Georgetown University Law, ao concluir que: Presentemente, todavia, com os acordos econômicos internacionais como também na vida um único tamanho não veste todas as pessoas#.
Uma maneira de temperar a agressão da desnacionalização seria aperfeiçoar os instrumentos que não coloquem os cidadãos nos braços aracnídeos dos interesses multinacionais. E a atual lei antitruste, se bem fosse aplicada, por um pugilo de juízes sérios e capazes, bem apoiados tecnicamente, respaldaria os cidadãos das investidas dos anônimos-poderosos, dando-lhes a necessária dignidade de seres humanos.
- JAYME VITA ROSO é advogado, conselheiro da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Federação Interamericana de Advogados (FIA), em São Paulo
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