Em uma viagem de carro começamos a refletir sobre algumas perguntas e possíveis respostas. Por que temos que pagar doze pedágios, no trecho de ida e volta de Maringá a Curitiba, se já pagamos o IPVA (Imposto de Propriedade de Veículos Automotores)? Se os contratos de concessão são de 30 anos, em quanto a sociedade paranaense engordará os bolsos das concessionárias durante este tempo? Quanto o Estado do Paraná gastará durante os 30 anos com toda a infra-estrutura? As despesas com a Polícia Rodoviária deveriam ser arcadas pelas concessionárias?
Se as concessionárias têm o direito de contar com a Polícia Rodoviária pública nas estradas, por que o dono de uma boate não pode solicitar segurança interna constante da Polícia Militar? Qual o montante inicial que as concessionárias investiram, antes da operação das praças de pedágios? Construíram e pagaram com recursos próprios as imponentes praças de pedágios, ou receberam algum empréstimo com juro subsidiado pelo Estado ou pelo BNDS? As duplicações das estradas serão realizadas apenas no final dos 30 anos? Por que os pedágios (assim como a luz, a água e o telefone) são reajustados por índices pré-fixados e o reajuste dos salários dos servidores públicos depende da boa ou má vontade do governador?
Para isso precisamos de muitos dados e não conseguimos sequer o volume do tráfego de veículos. O disparate dos pedágios do Paraná fica mais evidente quando comparados com os Estados Unidos. Lá paralelamente a uma estrada pedagiada sempre existe uma estrada pública sem pedágios. Pagar pedágio é uma opção pessoal de cada americano. Mesmo assim, uma estrada com aproximadamente 400 km, o pedágio gira em torno de 6 dólares. No Paraná para essa mesma distância o pedágio soma 8,3 dólares. Não é preciso falar que as estradas pedagiadas dos EUA têm no mínimo quatro pistas e uma qualidade inigualável. Aqui chegamos ao cúmulo de pedagiar estradas com pistas simples.
Ao longo dos 30 anos de contrato as concessionárias amealharão da população do Paraná quantias inimagináveis. Como é impossível obter dados reais, vamos partir de algumas hipóteses, que estão muito abaixo dos valores reais. Dados informais indicam que alguns trechos o fluxo atinge 10 mil carros diários. Vamos supor que apenas mil veículos façam 15 viagens por mês no trecho Maringá-Curitiba. Com o valor do pedágio de um carro de passeio pequeno e capitalizando a uma taxa de 1% ao mês, teremos ao final de 30 anos o montante de quase 3 bilhões de reais da nossa população que repassará para meia dúzia de empresários que tiveram o privilégio de receber de graça do governo Lerner as nossas estradas.
Para entender a magnitude deste número, tomem por base uma avenida urbana com 16 metros de largura, incluindo as galerias de escoamento de águas pluviais e terraplanagem. A valores de junho de 2003, que é de R$ 65,08 por metro quadrado, o custo aproximado da construção é de R$ 1.041.280,00 por quilômetro. Assim, o montante M capitalizado, cobre a construção de 2.507 quilômetros de estrada em pista dupla. Medida do anel rodoviário concebido por Lerner. Também equivale a 6 estradas com 420 quilômetros. É muito dinheiro sugado da população!
Utilizando os custos acima, podemos indagar que número de veículos diários é necessário para se construir uma estrada de 420 km (distância de Maringá a Curitiba), com pista dupla? O custo de construção será de R$ 437.337.600,00, o que corresponde a uma prestação mensal de R$ 4.498.509,65, em um financiamento de 30 anos à taxa de juro mensal de 1%. Assim, com apenas 3.011 carros diários (passeio pequeno), pagando esse escorchante pedágio, pagamos a estrada. O troco é lucro mesmo e extorquido da combalida população paranaense. Alguém deve ser responsabilizado por esses desmandos!
NELSON MARTINS GARCIA é professor do departamento de Matemática da Universidade Estadual de Maringá

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