Polícia na escola resolve? - Teofilo Bacha Filho
Polícia na escola resolve?
Teofilo Bacha Filho
Deu no jornal: quatro estudantes, menores de idade, estão acusando policiais militares de agressão física dentro da sala da diretora. O motivo foi o sumiço de um estojo escolar. A diretora da escola, diz a notícia, acionou a Patrulha Escolar para resolver o caso. Aparentemente, a questão envolve os policiais militares. Mas, só aparentemente. Na verdade, deve ser questionada a atitude da diretora: chamar a Polícia para resolver uma mera questão disciplinar. O pior de tudo é a desculpa usada pela, digamos assim, educadora: os quatro estudantes são problemáticos.
É certo que muitos defenderão a atitude da diretora. Os alunos de hoje estão impossíveis; os professores não conseguem mais ser respeitados pelos alunos; a violência campeia na escola e fora dela. Quando o Conselho Estadual de Educação reafirmou o entendimento de que a expulsão (transferência compulsória) não pode ser usada como medida punitiva arbitrária, muitos chegaram a afirmar que os conselheiros viviam nas nuvens. Aliás, a mesma ironia que vem sendo usada contra os filósofos, desde o tempo de Tales de Mileto.
A sociedade atribui à escola a tarefa de educar. Isto implica uma escolha ética, pois é preciso eleger os caminhos que levam ao bem finalidade última do educar. Por isto, o fazer pedagógico não é um simples fazer, mas um fazer crítico, isto é, um permanente questionamento da direção tomada pela prática docente no rumo de uma concepção de educação. E esta implica a questão da disciplina. Disciplina não significa um conjunto de punições reservadas aos estudantes mal-comportados.
Quando falamos em disciplina, precisamos relacionar três idéias centrais em educação: disciplina, autoridade e liberdade. É certo que a liberdade e a autonomia do ser humano é sempre relativa, pois as ações, de um lado, derivam de escolhas e, de outro, a situação concreta define os limites dentro dos quais se dão essas escolhas. Portanto, é fundamental que, para o exercício da liberdade, os homens tomem consciência da sua situação concreta. Fazer emergir essa consciência é um dos papéis fundamentais do educador e isto não se faz nem através da força, nem da violência, nem da coerção.
Precisamos reconceituar a autoridade. Esta não é autoritarismo. Sem dúvida, o processo educativo implica uma certa diretividade, metas a serem alcançadas, das quais duas são centrais: a humanização através da apropriação da cultura e do saber e a construção da personalidade pelo conhecimento de si e do mundo em que se vive. E isto só se obterá através de uma obediência libertadora, promovida pela autoridade verdadeiramente educativa.
Não se trata, como alerta Marilena Chauí, de trabalhar
para suprimir a figura do aluno enquanto aluno, isto é, o trabalho pedagógico que se efetua para fazer com que a figura do estudante desapareça. Mas de atuar como mediador e este é o papel do professor no diálogo que o aluno deve manter com o pensamento e a cultura.
Portanto, o exercício da verdadeira autoridade requer um trabalho duro e sistemático do professor que, detendo o conhecimento, é engenhoso e hábil em sua transmissão. A disciplina não é uma realidade isolada e solta dentro da prática educativa. Ela é o resultado das intervenções educativas totais no interior da escola e do compromisso, levado a sério, do grupo educativo como um todo. Só quando a escola tornar-se autêntica comunidade educativa, a disciplina será efetiva, libertadora e consciente. Mas isto jamais será conseguido delegando-se à Patrulha Escolar a tarefa de educar que a sociedade nos delega, e para a qual fomos (adequadamente?) preparados.
- TEOFILO BACHA FILHO é membro do Conselho Estadual de Educação do Paraná, em Curitiba





