A sociedade, no seu conjunto, ficou realmente indignada com as violências policiais ocorridas no Núcleo Habitacional Naval, em Diadema (SP), quando uma pessoa foi eliminada, outra gravemente ferida, várias submetidas a maus tratos com características de tortura, e muitas obrigadas a pagar pedágio para não sofrer gravames desse tipo.
Em consequência da brutalidade das cenas que mostraram esses fatos e que foram reproduzidas nas telas de TV, estampadas nos jornais de todo o País e duramente criticadas também no exterior, voltou-se a falar na necessidade imperiosa de serem adotadas medidas para que mais uma vez os policiais que participaram do lamentável episódio não se beneficiem da impunidade, como já aconteceu com a maioria deles que se safaram de processos mornos a que foram submetidos por uma Justiça conivente com um passado pontilhado de violências.
Esse desiderato pode ser alcançado, primeiro, aprovando-se na Câmara e no Senado projeto que torna mais abrangente a competência da Justiça Comum para processar e julgar os chamados crimes de policiamento, como a prisão ilegal, as lesões corporais, a tortura, a extorsão e o homicídio. Projeto como tal já foi aprovado no ano passado, na Câmara dos Deputados, de sorte que não existirão dificuldades para uma nova aprovação. No Senado, não mais se poderá lançar mão de artifícios para a desfiguração do projeto, pois, mesmo que isso ocorra, na reapreciação pela Câmara, inexistindo agora quaisquer dificuldades regimentais, como aconteceu anteriormente, restaura-se o projeto primitivo, o qual subirá à sanção governamental.
Em segundo lugar, aí está, em sua nudez, a realidade de que o caso de Diadema não é um fato isolado, pois a ele somam-se muitos outros de igual natureza, de que vêm sendo palco todo o território nacional, como aconteceu no Carandirú; nas proximidades de Lins, em Santo André, com um comerciante eliminado no interior de um camburão; em Porto Feliz, onde a cidade está submetida ao medo pela Polícia Militar; em Manaus, onde há uma associação da Polícia Militar com grupos de extermínio e onde a Polícia amarra crianças e desfila com elas pelas ruas da cidade; em Tocantins quando, em represália, um homem foi morto por policiais militares; no Rio de Janeiro, sem falar em Vigário Geral, Candelária, Acaraí, o episódio recente de meninos eliminados quando apanhados em um ônibus sem pagar os respectivos bilhetes; em Minas, fuzilamento de vários meninos. Enfim, todas as chacinas que cobrem de sangue o país são retrato de uma polícia que desconhece o seu dever de respeitar e defender o direito das pessoas, na sua qualidade de cidadão.
Está, pois, a sociedade brasileira bastante madura por essa convivência com a violência das Policias Militares para fazer uma reflexão sobre a polícia que temos e a polícia que queremos.
É que não mais se admite uma Polícia Militar, fruto da ditadura militar, voltada para a defesa do Estado. O que se quer é uma polícia hierarquizada e disciplinada, sem dúvida, mas voltada para a segurança das pessoas.
Tudo isso para que se inverta o sentido das pesquisas, que mostram que o povo tem medo da polícia e que a Justiça tem que ser uma só para policiais e para civis. Se temos que fazer reformas amplas do Estado, para adequá-lo às suas funções, que comecemos logo a pensar no sistema de segurança para, deixando-se de lado a ideologia da segurança nacional, instituirmos uma política de segurança do cidadão.

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