Os outdoors não se cansam de mostrar, as capas de revistas endeusam o abdômen sequíssimo de determinada celebridade e todas querem ser Juliana Paes, Deborah Secco ou Flávia Alessandra. No universo das modelos, a regra é mais rígida e o padrão mais esquálido e reto. Na semana que vem, esse padrão fica ainda mais em evidência com o início das semanas de moda do Rio e de São Paulo.

Na contramão da ditadura da magreza, a Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público aprovou recentemente a obrigatoriedade de as agências de modelos manterem serviço médico - composto por, no mínimo, um endocrinologista, um nutrólogo ou nutricionista, e um psicólogo - para acompanhamento da saúde dos profissionais da moda que participam de desfiles.

Autora do texto aprovado - um substitutivo ao Projeto de Lei 7574/06 - a deputada gaúcha Manuela D'Ávila, do PCdoB, em entrevista à FOLHA, defende a urgência de o mercado fashion e a sociedade repensarem seus padrões.

O projeto tramita em caráter conclusivo e ainda será examinado pelas comissões de Seguridade Social e Família; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.

Qual a atual realidade para as agências de modelos? Ainda há muita ''picaretagem''?
Algumas agências, as maiores, já exigem um número mínimo de Índice de Massa Corpórea (IMC), mas ainda existem pequenas agências e alguns empresários que não dão a atenção devida ao estado de saúde de suas profissionais.

As atuais exigências do mercado fashion - modelos magras, esquálidas - são inaceitáveis?
Uma revista nacional recentemente trouxe uma matéria com muitos dados abordando o estado deletério da alimentação e da saúde dos modelos. O índice de gordura acima do recomendado e a falta de alimentos básicos fazem o ''modelito'' das passarelas, segundo recente pesquisa levada a cabo por médicos e nutricionistas do Instituto de Metabolismo e Nutrição do Hospital do Coração de São Paulo. Após avaliar o gasto e o consumo calórico de modelos femininos entre 14 e 24 anos, concluiu-se que a grande maioria delas sofre de sérias deficiências nutricionais, embora, paradoxalmente, apresentem uma quantidade de gordura corporal acima do recomendado. Esse resultado foi atribuído ao estado de dieta permanente e inadequado das moças, pressionadas para perder peso rapidamente. O cardiologista responsável pela pesquisa afirmou que os resultados revelam um comportamento de risco, capaz de levar a distúrbios alimentares como anorexia e bulimia ou até à obesidade.

Por que acredita que o mundo da moda se negue a discutir o padrão que inventou?
Existe muita dificuldade de alguns setores de discutir este padrão. A semana de moda de Madrid fechou o cerco contra a doença estabelecendo regras. Resultado: cinco das 68 modelos escolhidas para o desfile não subiram à passarela por terem o IMC abaixo do estipulado pelo evento. O estilista Jean Paul Gaultier, como forma de protesto em seu desfile, contratou uma modelo de 130 quilos para desfilar de lingerie.

Fato é que a indústria da moda reúne mais de 30 mil empresas no Brasil e fatura US$ 34,6 bilhões por ano, gerando quase 1,4 milhão de empregos... Qual a influência que um outdoor com modelos muito magras geram nas jovens brasileiras?
O padrão de consumo é apresentado por diversas formas, inclusive pela publicidade. Nesse sentido, acredito que a publicidade pode colaborar substancialmente para que distúrbios alimentares não sejam estimulados pela imagem gerada, por exemplo, por um outdoor.

França, Itália e Espanha já colocaram um limite à magreza das modelos. Podemos dizer que o Brasil acordou para essa questão?
Sem dúvidas. A visibilidade maior em torno dos modelos com anorexia se deu em 2006, com a morte da brasileira Ana Carolina Reston Macan, de 21 anos, por complicações decorrentes da anorexia. A modelo de 1,70 metro pesava apenas 40 kg e seu IMC era de 13,52, considerado muito abaixo do padrão pela Organização Mundial da Saúde.

O que podemos esperar e prospectar, para os próximos anos? Um tamanho maior desfilado nas passarelas?
Estamos lutando para que as profissionais que desfilam e trabalham como modelos possam ser protegidas das pressões. Este é o papel do Estado e essa é nossa intenção.

SERVIÇO
Para calcular o IMC, divida seu peso por sua altura ao quadrado. O IMC considerado normal fica entre 18,5 e 24,4 kg/m2.

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