Um movimento organizado pela sociedade civil de Foz do Iguaçu intitulado Terra Guarani quer mudar o local de construção da segunda ponte ligando o Brasil ao Paraguai. O motivo, segundo o movimento, é que área seria melhor aproveitada se abrigasse um ''Parque Turístico Cultural e de Lazer Integrado'', gerando receitas e preservando a riqueza ambiental da região das três fronteiras.

Em entrevista à FOLHA, o arquiteto Nilso Rafagnin, um dos líderes do movimento, afirma que a escolha do local foi baseada em critérios econômicos, por ser o lugar mais estreito do rio. A proposta do Terra Guarani é deslocar as ligações entre Brasil, Paraguai e Argentina para um diâmetro de 30 quilômetros do local desejado. ''Este espaço deve ser do ecoturismo, do lazer. Um local onde os povos possam compartilhar suas maravilhas, e não os caminhões, o caos e o estresse'', critica o arquiteto.

Por que o movimento Terra Guarani é contra a construção da ponte?
Não somos contra a construção da ponte. Nós defendemos até três pontes para atender a construção do anel viário da tríplice fronteira. O problema é o lugar que foi escolhido para construir esta segunda ponte é justamente onde a comunidade quer criar parques ambientais no marco das três fronteiras. A idéia é estabelcer parques turísticos, culturais e de lazer integrados, com o objetivo de mostrar para o mundo a convivência pacífica entre os povos da América do Sul.

O que existe atualmente neste local?
Algumas indústrias já estão se instalando, e a segunda ponte entre Brasil e Paraguai ficaria nas imediações, a menos de 1.200 metros daquele lugar.

Não foi feito, por parte do governo, um estudo do impacto ambiental na área?
Já foi realizado, mas a questão do impacto ambiental precisa ser analisada em um contexto mais abrangente. Os engenheiros dizem que ali é o lugar mais econômico para a construção, por ser o lugar mais estreito do rio. Qualquer diferença de 50, 100 metros afeta o custo de uma obra deste porte. Nós, como arquitetos, achamos que o custo não é o único elemento que define a escolha de um local. Convergindo todo o fluxo de tráfego pesado e aglomerações urbanas no núcleo do pólo turístico trinacional, há grande chance de gerar novos focos de tensão social, a exemplo do que ocorre hoje em Cuidad del Este.

Qual é a alternativa proposta pelo movimento, uma vez que a construção da ponte é necessária e inevitável?
A proposta seria deslocar estas pontes para um diâmetro de 30 quilômetros, contornando a área de fronteira e passando pelos três grandes aeroportos internacionais existentes na região. A idéia é transformar essa região internacional do Iguaçu em um grande centro logístico e turístico da América do Sul. As mercadorias que vêm de São Paulo, Buenos Aires, Paranaguá e Assunção não devem ocupar o espaço da região trinacional. Este espaço deve ser do ecoturismo, do lazer. Um local onde os povos possam compartilhar suas maravilhas, e não os caminhões, o caos e o estresse.

Este desvio proposto pelo movimento é viável?
Já existe a perimetral leste, que desvia de Foz do Iguaçu mas leva para o miolo da região trinacional da mesma forma. Nossa proposta é fazer um anel multimodal. Em vez de ser um lugar de fim de linha, a região seria uma espécie de ''hub'', onde em vez de convergir, tudo se expande, para ser o verdadeiro coração da América do Sul. Nós não queremos mais ser apenas um lugar de passagem, queremos uma integração efetiva. Da forma como está, estamos mostrando para o mundo como detonar os nossos recursos.

Os paraguaios de Presidente Franco são favoráveis à mudança de local da ponte?
A cidade sempre sonhou com esta segunda ponte. Já nos reunimos com o prefeito e os vereadores de lá, e eles disseram que estão dispostos a analisar a possiblidade de reposicionar esta segunda ponte se for para um benefício maior do município. Eles estão vendo que o turismo é considerado uma fonte de ingresso de dinheiro limpo, em euros, dólares. A visão nossa é transformar a região de Presidente Franco, Porto Meira e Puerto Iguazu em um grande centro turístico. Para isso, vai haver um investimento pesado em infra-estrutura, saneamento básico e saúde para receber o turista. Será uma nova cidade, com um salto muito grande de qualidade de vida da população, reduzindo o índice de pobreza do lado paraguaio.

E para Foz do Iguaçu, quais seriam as vantagens?
Hoje Foz do Iguaçu não pode receber mais de seis mil congressistas em eventos. Mas se ligar os três aeroportos e juntar com toda a infra-estrutura hoteleira da Argentina, podemos receber simultaneamente três a cinco grandes congressos internacionais. Tem também a questão da segurança. Por que o bandido domina a favela? Porque só ele entende aquele caos. O caos urbano que está se instalando na região de Foz do Iguaçu, sem critério técnico de planejamento integrado, é uma ameaça à segurança regional.

mockup