Não houve assunto mais falado na imprensa esportiva paranaense nesta semana do que a polêmica arbitragem do jogo entre Londrina e Coritiba, realizado no domingo passado no Estádio do Café. O time da capital derrotou a equipe da casa por 1 a 0 e conquistou o título do primeiro turno do Campeonato Estadual.
O policial federal Felipe Gomes da Silva, árbitro carioca que este ano passou a integrar o quadro da Federação Paranaense de Futebol (FPF), provocou fúria nos jogadores e na torcida do Londrina, ao deixar de assinalar pênalti para os donos da casa em três lances. No primeiro, o meia Robinho, do Coritiba, desviou a bola com o braço dentro da área ao interceptar cruzamento feito por Germano. No segundo, o atacante coxa-branca Rafinha usou a mão para mandar a bola para a linha de fundo.
O terceiro lance foi o mais polêmico: após o zagueiro Pereira bloquear uma bola, que a imagem da televisão não deixa claro se pegou no braço ou no peito do defensor, o Coritiba puxou o contra-ataque e fez o gol do título. A revolta alviceleste gerou tumulto dentro e fora do Café, e as discussões continuaram durante a semana.
O policial civil Valdir de Córdova Bicudo, que foi árbitro entre 1979 e 97 (fez parte dos quadros estadual e nacional) e hoje escreve sobre arbitragem em oito sites, considera que ocorreram apenas dois pênaltis no jogo: o cometido por Robinho e outro a favor do Coritiba, já nos acréscimos do segundo tempo, quando o atacante Arthur foi derrubado na área.
Ele acredita, entretanto, que o LEC foi mais prejudicado, porque a marcação do primeiro pênalti poderia ter mudado os rumos da partida. Bicudo considera ainda que a arbitragem errou ao assinalar dois impedimentos inexistentes em ataques do Londrina, e sugeriu que em jogos importantes do segundo turno a diretoria alviceleste solicite que sejam escalados árbitros de fora do Paraná. Na opinião do ex-árbitro, os equívocos de domingo são a tradução de problemas profundos na arbitragem paranaense.
Como o senhor avalia a atuação do árbitro Felipe Gomes da Silva no jogo entre Londrina e Coritiba?
Na minha opinião, faltou conversar com o árbitro, contar a ele o que significava aquele jogo. Embora ele seja aspirante à Fifa, ele não tem conhecimento do nosso futebol. Ele veio do Rio de Janeiro, era sua terceira partida no Campeonato Paranaense. O Londrina voltava a uma decisão depois de 20 anos. Houve uma mobilização, a cidade fechou com a equipe do Londrina, o Estádio do Café estava repleto, 30 mil pessoas. Eu acredito que esse árbitro, pelo que conheço dele, nunca apitou um jogo daquela dimensão, com tamanho público. Tinha que contar para ele a história, assim que ele foi sorteado, dizer que era interior contra capital. Tem uma cultura, já há uma premonição de vários segmentos que envolvem o futebol, de que quando joga capital contra interior, e não estou dizendo que ele fez isso, mas há uma cultura de que o árbitro sempre vai beneficiar o time da capital. Então, ao meu ver, faltou esse diálogo e o árbitro em si não veio preparado.
O senhor acredita que foi uma situação isolada ou indica alguma coisa da arbitragem hoje no futebol paranaense?
Não posso fazer essa afirmação (de que houve má intenção), seria uma leviandade. O que eu acredito é que, assim como esse árbitro não tem a menor identidade com nosso futebol, a maioria dos árbitros que estão no quadro da federação não foi preparada nos últimos oito anos para a realidade de que o futebol mudou. Ele se modernizou em todas as áreas, no entanto o árbitro ficou parado. Ele está parado em vários setores no Brasil, mas sobretudo no Paraná, onde há uma acomodação. O árbitro pega sua mochila, coloca sua chuteira, seu equipamento para o dia do jogo, e acha que é só entrar em campo e apitar. É a mesma coisa com os assistentes. Não há um trabalho de requalificação, de aprimoramento. Não basta fazer a pré-temporada, e depois soltá-los na arena para que os leões os devorem. Nós estamos vivenciando a cada rodada um problema. Antes desse jogo do Londrina, teve problema em jogo do Nacional de Rolândia, do Paranavaí, no jogo J. Malucelli x Paraná, no clássico Paraná x Coritiba. Há uma sequência. Mas, isso é bom que se diga, não é de hoje.
Recentemente, o Paraná perdeu seus árbitros da Fifa...
A saída do Evandro Rogério Roman, do Roberto Braatz e do Héber Roberto Lopes, os três do quadro da Fifa, o Evandro por questões particulares, o Braatz por idade, e o Héber que foi para a Federação Catarinense de Futebol, abriu um vácuo, de ausência de qualidade no nosso futebol, que dificilmente será preenchido.
Qual é a saída? Como deve ser feita essa modernização?
Tem que começar pela transformação total na Comissão de Arbitragem da Federação Paranaense de Futebol, trocar todos os seus membros. Os árbitros paranaenses estão acometidos, na minha opinião, de uma epidemia mortal de incapacidade de discernimento, de dizer se foi pênalti ou não, se foi falta ou não foi, se está impedido ou não está. Então, falta um projeto de qualificação.
O senhor acredita que a profissionalização seria o caminho, o árbitro se dedicar exclusivamente à função?
Não, a profissionalização não é viável no Brasil. Hoje, a Previdência Social tem um deficit de R$ 45 bilhões no ano. Então, isso é uma utopia. Nós podemos conseguir uma aproximação. Profissionalizar o árbitro é muito difícil. Nós só temos um país no mundo que adota a profissionalização, que é a Inglaterra, na Premier League. Na Itália não tem, na Alemanha, na França, Espanha, os árbitros são semiprofissionais. Agora, chegar a regulamentar a atividade, eu entendo que ainda é um longo caminho a ser percorrido, político, cultural. Qual seria a solução? A mudança imediata da comissão, colocar pessoas qualificadas, e pegar parte desse dinheiro que a federação arrecada hoje, que é um verdadeiro saco sem fundo, e direcionar para que se faça um processo de requalificação da arbitragem, e que nesse processo haja noção dos cinco pilares que a Fifa exige do árbitro: técnico, tático, físico, psicológico e social. Cada um tem uma função dentro de campo para que o árbitro possa, não deixar de errar, porque ele é humano, está sujeito a qualquer momento a cometer um equívoco, mas para que os erros sejam minimizados.
O senhor acredita que os três lances reclamados pelo Londrina realmente foram pênaltis?
Houve dois pênaltis no jogo, na minha concepção, de acordo com as regras do jogo. O árbitro estava mal posicionado e por isso não viu o pênalti cometido pelo Robinho. Se ele marca aquele pênalti, o Londrina faz o gol, muda totalmente a história do jogo, o Coritiba ia precisar buscar (o empate), o Londrina ia ter outra configuração tática. Objetivamente respondendo, pênalti, que eu marcaria, e que a regra manda marcar, foi o do Robinho, aos 10 minutos, e o pênalti sobre o Arthur, aos 47, 48 minutos do segundo tempo. O pênalti do Pereira já foi comprovado que não aconteceu. O pênalti do Rafinha, ele cai e usa a mão para se apoiar, e toca na bola. Na minha opinião, ele não teve intenção.

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