A discussão acerca do projeto da Usina Hidrelétrica no Rio Tibagi parece não ter fim. Uma guerra de liminares faz com que o início da construção se arraste. Diversos estudos feitos por ambientalistas apontam sérios riscos à saúde da população, um deles relacionado à água do abastecimento. Existe uma área de mineração de carvão, com resíduos de elementos metálicos, como cádmio, chumbo, alumínio, entre muitos outros, que seriam soterrados debaixo das águas e poderiam contaminar a água, com consequências desconhecidas.

Essas informações são da bióloga e professora da Universidade Estadual de Londrina Sirlei Bennemann, que trabalha nos estudos de impactos ambientais no Rio Tibagi e viaja dando palestras sobre o assunto. Nesta entrevista à FOLHA, ela critica a população por ser acomodada em relação ao meio ambiente e aponta uma culpada: a falta de educação ambiental nas escolas.

Como está a relação do movimento contrário à usina com o Governo?
A maior parte dos pareceres técnicos que nós fizemos não foi considerada e também não teve resposta. O estudo dos aspectos ambientais estavam falhos. O Instituto Ambiental do Paraná (IAP), órgão que deu a licença, colocou 70 condicionantes, ou seja, estudos que estavam faltando e perguntas que não foram respondidas.

Poderíamos dizer que os pareceres foram solicitados porque era necessário, mas que não fez diferença nenhuma para o que seria feito depois?
Foi exatamente o que aconteceu. Inclusive o último que fizemos foi para o Ministério Público Federal. Nós estamos cobrando um parecer do Ministério do Meio Ambiente. Dessas 70 condicionantes, só foram apresentadas e estudadas 13 delas. É tudo uma coisa faz-de-conta. Para mim foi muito grave descobrir como funcionam os orgãos ambientais aqui do Estado do Paraná. Se fossem realmente orgãos sérios, não estariam destruindo um ambiente que é prioritário para a conservação.

O rio ainda tem chances frente ao poderio econômico?
Tem três situações que eu considero. Uma delas são as leis, porque tem 16 ações hoje, algumas foram julgadas, são apresentadas mas continuam falhas. A segunda é a mobilização popular, mas isso está longe de atingir essa qualidade, porque cada pessoa tem que se olhar, ver o que está fazendo. Isso é um problema cultural e uma falha da educação.

As pessoas sabem da importância da preservação, mas não fazem nada a favor disso?
Elas esperam que os governantes façam. O povo não quer sair do conforto, não quer deixar de consumir. Eu acredito que só tendo uma grande mudança na educação, por meio de um movimento popular, isso pode acontecer. Nós de Londrina estamos sendo tremendamente impactados, porque tem o problema seríssimo da água que será contaminada.

São as minas desativadas? Como funciona isso?
Exatamente. O problema fica nos sedimentos, nos resíduos que não foram analisados e isso é uma bomba. Algumas instituições como o Consema (Conselho do Meio Ambiente) viram os pareceres falando dessa gravidade e estão se mobilizando. As pessoas que têm um pouco de conhecimento estão com medo. O abastecimento vai ficar comprometido. Voltando ao raciocínio anterior, a terceira coisa que eu considero é que esse projeto é tão mal embasado que em algum momento eles vão ter problemas seríssimos, provocados pela resposta da natureza, pelas falhas nos estudos.

O Paraná precisa de mais essa Usina?
Com certeza não, principalmente pelo que tem sido defendido pelos grandes especialistas, não só do Brasil, mas do mundo. E nos documentos que o próprio governo está fazendo, consta que não se deve mais fazer grandes hidrelétricas porque tem 'n' alternativas, pequenas, localizadas.

As escolas já estão preparando as crianças para reciclarem, não desperdiçarem. Podemos ficar tranquilos? Isso é suficiente?
Ainda falta muito. Têm algumas escolas que são exemplos nessa linha, mas têm outras que não estão nem aí também porque falta formação do professor que está lá. Eu acho que vai levar décadas no Brasil para haver essa mudanças. Nós temos que voltar a viver simples, isso é o sustentável. Os ribeirinhos têm essa forma de vida.

O que é viver de forma simples?
Não desperdiçar. O desperdício de energia que é utilizada com o banho poderia dar uma diferença enorme. Fazer trabalho educativo, para que as pessoas usem a energia solar. Só isso seria o gasto de uma hidrelética por ano.

Na cidade algumas coisas ficam mais difíceis de serem feitas...
E aí tem uma grande diferença. Quem vive na cidade tem uma visão completamente ignorante de tudo, agora quem vive no campo, quem nasceu no campo é mais fácil. Nós do mundo acadêmico temos que ter uma vida mais prática também, aplicar o nosso conhecimento para aquilo que precisa. Os projetos são feitos inadequadamente por causa disso. Falta integrar os conhecimentos, considerar todos os conhecimentos.

Essa seria a responsabilidade das universidades?
Grande parte do sucesso da mobilização que nós tivemos foi por causa disso, pessoas de áreas diferentes deram pareceres técnicos para que o Ministério Público pudesse encaminhar as ações. O sucesso de atuar com várias pessoas de áreas diferentes é o que incomodou bastante. É o que deu sustentação de uma certa forma. Talvez se mais pessoas, se a Universidade estivesse atuado em todas essas áreas, o processo não teria passado.

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