Dizem que tamanho não é documento, mas pesquisas recentes vêm relacionando o tamanho dos dedos a características do comportamento humano ou a probabilidade de doenças. A relação entre o tamanho do dedo indicador e do dedo médio, por exemplo, poderia indicar melhores habilidades nos esportes ou no mercado financeiro.
No final do ano passado, uma pesquisa realizada pelo cientista John Manning, da Universidade de Liverpool, na Inglaterra, indicou que o comprimento dos dedos pode indicar que um homem tem maior ou menor probabilidade de ter câncer de próstata. O nível de testosterona durante a gestação definiria o tamanho dos dedos e consequentemente o grau de vulnerabilidade à doença.
Alguns profissionais veem essas pesquisas com ressalvas. Rui Fernando Pilotto, doutor em Genética e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) é um deles. ''O comprimento dos dedos, dos membros, a estatura de uma pessoa são exemplos de características genéticas. Desta forma, é difícil de acreditar que pessoas com um dado comprimento de dedo indicador ou qualquer um dos outros possam ter sucesso nos esportes, uma vez que não há uma explicação plausível que possa correlacionar tais achados'', explica.
Várias pesquisas atualmente têm relacionado o tamanho dos dedos a características como sucesso nos esportes ou chance de desenvolver câncer de próstata. Qual sua avaliação?
Todos nós sabemos que há associação, por exemplo, do sistema ABO com algumas doenças. Assim, indivíduos do grupo sanguíneo O têm úlceras duodenais com mais frequência. Para isso, há toda uma explicação imunológica. O comprimento dos dedos, dos membros, a estatura de uma pessoa são exemplos de características genéticas, ou seja, existe um conjunto de genes que juntos e por um efeito aditivo determinam uma característica. Desta forma, é difícil de acreditar que pessoas com um dado comprimento de dedo indicador ou qualquer um dos outros possam ter sucesso nos esportes, uma vez que não há uma explicação plausível que possa correlacionar tais achados.
Há como fazer a dosagem retroativa de algum hormônio da gestação?
No período gestacional podem ser detectadas secreções placentárias. Por exemplo, a gonadotrofina coriônica humana (HCG) é usada para o diagnóstico da gravidez e de tumores placentários, bem como para o eventual desenvolvimento de anticorpos anticoncepcionais. Como cada gravidez é um evento independente, para cada gestação a avaliação hormonal laboratorial encontrará níveis diferentes para uma mesma senhora, nas diferentes gestações que ela venha a ter. Assim, avaliar no adulto retrospectivamente como eram esses hormônios na vida intrauterina não tem sentido e nem há como.
Essas pesquisas podem levar pessoas a imaginarem que seria possível fazer uma terapia hormonal durante a gestação para que o bebê futuramente tenha uma ou outra característica desenvolvida. Isso é possível? Quais os riscos?
Somos da opinião de que qualquer terapia hormonal durante a gestação não seria indicada, uma vez que não teria como alterar o componente genético de um futuro ser. Todas as características que nós expressamos são denominadas de Fenótipo (F), o qual é o resultado do componente genético (G) mais o ambiente (A). O grande risco seria descontrolar o mecanismo genético da regulação gênica.
Um assunto polêmico é o casamento entre primos. Em quais casos é recomendado um exame genético do casal?
O casamento entre primos sempre existiu e sempre existirá. O importante é orientarmos o casal sobre o significado genético desse tipo de enlace, quais os riscos empíricos (baseados na experiência e na observação) de virem a ter filhos com algum tipo de malformação congênita e/ou síndromes dismórficas, para que possam tomar uma atitude coerente em relação a opção reprodutiva de ter filhos ou não. Essa é a nossa conduta médica no sentido de dar uma orientação não diretiva, ou seja, compete única e exclusivamente ao casal decidir se deve ou não ter filhos. Mesmo que um casal, primos em primeiro grau, tenha tido um filho com uma doença genética, nós podemos enunciar o risco genético para uma próxima gestação, ou seja, o risco de recorrência, mas nós não podemos decidir pelo casal.
Quais as chances de um casal de primos em primeiro grau ter filhos com problemas? E um casal sem grau de parentesco?
Quando um casal nos procura para uma consulta preconcepcional, podemos mencionar uma série de orientações quanto a prevenção de deficiências, e nessa oportunidade procuramos conscientizar a importância do comportamento preventivo do casal, conhecimento das condições de saúde e dos riscos para malformações congênitas. Assim, o melhor momento para esse tipo de orientação é antes de uma gravidez.
Para um determinado casal, em que na história familiar não existe nenhum caso, em ambas as famílias, de malformações congênitas e/ou síndromes dismórficas, mesmo assim existe um risco, em tese, em torno de 3%, de virem a ter um descendente com algum tipo de doença genética. Se estivermos atendendo um casal, e que sejam consanguíneos, do tipo primos em primeiro grau, esse risco está em torno de 9%.

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