Curitiba - Marcada para amanhã, a Marcha da Maconha estava prevista para acontecer em 12 cidades brasileiras. No entanto, pelo menos na Bahia e no Paraná, o movimento foi barrado pela Justiça, acusado de promover o consumo de drogas. Em Curitiba, o evento foi proibido por um pedido do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), deferido ontem por um juiz da Vara de Inquéritos. Confira o que pensa um dos organizadores do evento em Curitiba, o estudante de Ciências Sociais Mauro Leno.

O que a Marcha da Maconha defende?
Queremos que a sociedade discuta a legislação a respeito de drogas no País sem hipocrisia, porque o que se faz é jogar o problema para baixo do tapete. A lei não tem uma definição clara de usuário e traficante. Isso dá margem para interpretações diferentes. Enquanto a polícia pode pegar um jovem com 10kg de maconha no Batel e dizer que é para uso próprio, também pode prender outro no Capanema com 100g e caracterizar como tráfico. Até porque o rico tem acesso a defesa, e o pobre não. Mas agora nossa principal luta tem sido pelo direito de pedir o debate. Como somos acusados de promover o consumo, somos combatidos como se promovêssemos o crime. Mas é um direito garantido pela Constituição. A lei defende o direito de qualquer pessoa se reunir e discutir.

Você acha que o preconceito contra a maconha é um preconceito social?
É, mas não somente isso. O que acontece com a maconha é que se proibiu a planta como um todo. No entanto, há três diferentes tipos dentro da mesma espécie: a sativa, que tem teor de THC (delta 9-tetrahidrocanabinol - componente alucinógeno da planta) de 15% a 20%; a indica, com 3%; e a ruderalis, com 0,3%. Essa última é a planta da qual é extraído o cânhamo, uma fibra de uso industrial. Antes da proibição da maconha nos Estados Unidos, por exemplo, o cânhamo era uma das principais matérias-primas do país. George Washington e Thomas Jefferson eram agricultores de cânhamo. As grandes navegações só foram possíveis graças a essa fibra, porque permitia a confecção de velas mais resistentes.

É uma política do movimento não expor seus participantes?
A idéia de não ter nomes no site é porque é um movimento descentralizado. Para evitar que alguém se aproprie do trabalho coletivo. Mas você pode verificar que há nomes de diversas instituições que apóiam a marcha e participam da promoção. É claro que algumas pessoas, por conta de seus empregos, não gostam de se expor para evitar problemas.

Têm algum receio de ser preso por apologia ao crime?
O que é recomendado desde o ano passado é instituir um advogado em cada cidade. Alguns entraram com pedido de habeas coupus preventivo, até mesmo para informar o Judiciário sobre o que é a Marcha, quais seus objetivos. O medo existe porque estamos vendo uma forte repressão. Chegaram até a dizer que somos liderados por narcotraficantes, o que é um absurdo porque nenhum traficante tem interesse em discutir mudanças na legislação. Não queremos promover o consumo da Maconha. Durante a Marcha usamos nossos próprios mecanismos para impedir o consumo. Pedimos o apoio da polícia para atuar. Não concordamos de forma alguma com atitudes ilíticitas.

Vocês são usuários? Como o movimento lida com isso?
A pessoa tem o direito de decidir ou não se quer consumir drogas. É uma questão pessoal. No entanto, no movimento, há usuários e há quem nunca experimentou nenhuma droga. Isso não é relevante...

Vocês defendem a legalização só da maconha? O que diferencia a maconha do crack e da cocaína?
A maconha tem um efeito diferente do crack e da cocaína. É uma droga que acalma. Já as outras são estimulantes.

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