Polarização mata
A Europa e a América Latina especificamente, seguem ipsis litteris o roteiro mórbido do Hollywood americano
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segunda-feira, 01 de setembro de 2025
A Europa e a América Latina especificamente, seguem ipsis litteris o roteiro mórbido do Hollywood americano
Pe. Manuel Joaquim R. dos Santos 
As notícias que nos chegam da terra do tio Sam são estarrecedoras. Dão-nos conta que por lá, a polarização política atingiu níveis selváticos nunca outrora vistos. Nem na era Reagan, quando numa terça-feira, 4 de novembro de 1980, o candidato republicano derrotou o democrata Jimmy Carter em uma vitória esmagadora. Havia então dois lados, como hoje! E, convenhamos, Carter tinha sido um excelente presidente. Cometeu erros, por óbvio, mas entrou na história à sombra de nobres epítetos. Opôs-se veementemente à ditadura brasileira, lutou pelos direitos humanos e pela democracia e acabou levando o prêmio Nobel da Paz, hoje almejado cinicamente pelo atual inquilino da Casa Branca. Porém, no meio do caminho havia a crise dos reféns do Irã e a promessa do ex-ator de aumentar os gastos com a defesa e tornar a nação “grande de novo”! Não foi uma campanha pacífica; mas há 45 anos, o mundo vivia a Guerra Fria e Democratas e Republicanos tinham um apurado senso de unidade em torno do essencial, que se sobrepunha às diferenças sobre o projeto de país que desejavam. Eis o que falta em 2025!
Alguns americanos odeiam outros americanos, não porque eles não sejam americanos, mas porque, sendo americanos, não pensam como eles! Uma equação bizarra e absurda que flui livremente pelas mentes mais sofisticadas dos habitantes dos EUA! Contam-nos amigos que por lá moram, que vizinhos se estranham e familiares não mais se visitam. Como um fio elétrico desencapado, assim se pautam os relacionamentos! Ao mínimo deslize, um conflito de proporções incalculáveis eclode, olvidando antigas juras de amor! Os norte-americanos parecem incapazes de ver um pingo de razão na posição do companheiro de bandeira. Ninguém baixa as armas para auscultar as razões do coração de outrem. Uma surdez generalizada. Uma pandemia de incompreensão! Os republicanos têm a certeza inabalável que os democratas querem acabar com a família tradicional. Estes, por seu lado, acreditam piamente que os eleitores de Trump são racistas, xenófobos e misóginos. Nenhum dos grupos abre espaço para a mínima compreensão das teses adversárias. Assim se vive hoje nos EUA.
A polarização atual é uma miopia existencial, provocada e alimentada conscientemente, por quem lhe apraz que assim seja! Estranho? Nem um pouco! Não é casual que ela tenha aumentado proporcionalmente ao uso generalizado das redes sociais e da ação programada dos algoritmos travestidos de fake news. A polarização pressupõe uma mobilização feroz, levada a cabo por agentes de carne e osso, que a desenham em gabinetes sofisticados e a põem em movimento em questão de segundos! A famosa “tia do zap” (figura caricata e hilária que se impôs no universo das redes), é vítima, não de um acaso ou da “maldade” da vizinha! Ela não passa de um soldado a serviço de sargentos e generais que a usam com fins, a cada dia menos escusos. Esse pobre ser humano, armado até os dentes com um singelo aplicativo, tem o potencial de implodir um almoço da mama aos domingos, em sua casa! O extremismo corroeu as discussões civilizadas e profícuas que caracterizavam o debate político. Os Republicanos já foram mais “democratas” e os Democratas já se assemelharam mais com os republicanos! A polarização é o caminho mais curto para a barbárie! Como diria alguém: deve haver alguma coisa de muito errada nas redes sociais para que o padrão seja composto de relações baseadas na incivilidade.
Num país de pequenas dimensões e insignificante no tabuleiro da geopolítica mundial, metade brigando com a outra metade, não desperta um minuto de atenção. Contudo, quando o mais poderoso do mundo, berço da Democracia e do Estado de Direito, envereda por esse caminho de tensão constante numa luta fratricida, temos motivos de sobra para preocupação! De fato, a nação que exporta modelos culturais hegemônicos ao longo dos últimos séculos, envia agora sinais claros e contagiantes a outros países, de uma decadência moral e cívica incontornável. A “queda” do que os EUA sempre representaram, não é um pormenor ou detalhe no momento histórico que atravessamos. A Europa e a América Latina especificamente, seguem ipsis litteris o roteiro mórbido do Hollywood americano!
A polarização está matando a alma de nossos países!
Pe. Manuel Joaquim R. dos Santos
Arquidiocese de Londrina


