Poderíamos ter evitado esta morte?
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de agosto de 2002
Manoel Fernandes Canesin 
Sim, particularmente se ocorrida em Londrina após a nova lei de Suporte Básico de Vida (SBV) começar a vigorar. Nós cidadãos de Londrina devemos e podemos começar a contar e colaborar com ela. Eu escrevendo no papel de cidadão e não de médico conhecedor da causa. Sinto-me orgulhoso de morar em Londrina, a primeira cidade da América Latina a ter uma lei tratando deste assunto.
A ''morte súbita'' por doença cardiovascular, que muitas vezes nos achamos impotentes para ajudar, pode não acontecer, se estivermos preparados para evita-lá. A preparação consiste em algum investimento social, principalmente cultural e educativo. A doença cardiovascular é a doença que mais mata na fase adulta de nossas vidas. Hoje no Brasil morrem por ano quase 200 mil pessoas antes mesmo de conseguirem chegar ao hospital e metade delas nunca nem mesmo tiveram sintomas anteriores ou não sabiam que tinham a doença. Infelizmente a maioria de nós acaba acreditando que a pessoa morreu ''no hospital'' em que foi levada, ou seja, naquele serviço de emergência. No entanto, ela morreu ''no local'' onde perdeu a consciência e não no hospital a que foi levada.
Um grande passo para a solução destas mortes foi dado com a aprovação da lei de Suporte Básico de Vida. A lei obrigará locais públicos de mais de 1.000 pessoas circulantes ao dia a possuir pessoas treinadas para realizar o salvamento da parada cardiorespiratória e a ter o equipamento que emite o choque para fazer com que o coração volte a bater espontaneamente. O equipamento chama-se desfibrilador automático externo. Locais como o aeroporto, shopping centers, rodoviária, centro de convenções e grandes academias esportivas deverão disponibilizar pessoas treinadas e o equipamento.
Esta atitude é a diferença entre a vida e a morte, já que este choque deve ser dado em até três minutos para que sejam alcançados resultados satisfatórios. Somente a compressão torácica e a respiração boca-boca não salvam vidas. O treinamento é prático e simples e pode ser feito em quatro horas por qualquer instituição credenciada pelo Conselho Nacional de Ressuscitação que segue protocolos internacionais.
Cidades como Seattle e Rochester nos Estados Unidos e outras cidades e comunidades no mundo já estão colhendo resultados. Nestas cidades de cada 100 pessoas que apresentaram parada cardiorespiratória pré-hospitalar consegue-se salvar até 70 e em cidades que ainda não existe esta ''cultura'' implantada salva-se no máximo cinco.
Considero fundamentalmente educacional a maior dificuldade na implantação deste sistema. As pessoas devem ser educadas a conhecer a importância do assunto e de que é possível fazer algo para impedir estas mortes. O custo é baixo perto dos benefícios a curto, médio e longo prazo. Sabemos que uma vida particularmente não possui preço, entretanto, populacionalmente existe um preço a ser considerado.
Portanto, o treinamento de algumas pessoas em seu local de trabalho ou até mesmo em um posto policial de uma região residencial junto a presença do desfibrilador poderá ser decisivo para o salvamento. Posteriormente a ambulância com o profissional chegará e complementará o salvamento. Estes três minutos iniciais são decisivos entre a vida e a morte e sabemos que nos melhores sistemas de salvamento do mundo, a ambulância equipada e com médico demora em média de seis a sete minutos para chegar.
O projeto ''Tempo é Vida'' que luta por esta causa, iniciado na Universidade de Londrina há quatro anos, junto com apoio da cidade de Londrina através desta nova lei que servirá de modelo ao País, necessita de empenho de todos nós; profissionais de saúde, empresários, governantes, professores e trabalhadores e acima de tudo cidadãos. Tudo é uma questão de tempo e, sobretudo, como devolver o tempo a quem acabou de perdê-lo.
MANOEL FERNANDES CANESIN, é presidente da Comissão de Ressuscitação do HURNP/UEL, doutor em Cardiologia pela Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Sociedade Paranaense de Medicina de Emergência (SOBRAMEDE/Pr)


