É só uma perguntinha singela: com a delegação de quem, com a legitimidade conferida por quem o pessoal do FMI, do Bird, do BID, da OMC e de outros organismos internacionais intromete-se no quintal dos outros, dá palpites, receitas, passa pitos e interfere na vida dos cidadãos de grande parte dos países do mundo? Tudo isso é democrático? A verdade é que os integrantes dessas organizações internacionais, os dirigentes dos grandes conglomerados internacionais e as equipes econômicas que adotam o breviário ortodoxo dos arautos do ‘‘Pensamento Único’’, é que estão dando as cartas. E ao que se saiba sem terem sido eleitos, referendados ou plebiscitariamente escolhidos.
O principal argumento de defesa em benefício desse deslocamento de poder é que o tempo da política representativa é bem mais lento do que o tempo da economia. E as coisas hoje em dia giram na velocidade do computador. Tá bom. Além do mais, o presidente do Banco Central é sempre sabatinado pelo Senado, que pode vetar a sua indicação, dizem os defensores dos novos tempos no Brasil. Uma coisa só de fachada. Só para constar, porque o Senado nunca reprovou um dirigente do BC. Chico Lopes nem passou ainda pelo Senado e já toma decisões que envolvem bilhões de dólares e milhões de seres humanos.
Resta saber se essa verdadeira revolução que está ocorrendo está trazendo benefícios para o homem comum. Pelo visto não. O número desse mês de ‘‘Le Monde Diplomatique’’ diz que mesmo nos países considerados superpotências não está garantido a todos os cidadãos um nível de desenvolvimento humano satisfatório. Existem nos Estados Unidos 32 milhões de pessoas cuja expectativa de vida está abaixo dos 60 anos, 40 milhões sem nenhum tipo de cobertura médica, 45 milhões que vivem abaixo do limite de pobreza e 52 milhões de iletrados. Na opulenta União Européia, mesmo com o nascimento do euro, moeda forte, existem 50 milhões de pobres e 18 milhões de desempregados.
Do outro lado, nós chegamos ao ponto em que indivíduos se tornaram mais ricos do que alguns Estados. O patrimônio das 15 pessoas mais ricas do mundo ultrapassa o PIB total do conjunto de países da África subsaariana.
Só não vê quem não quer. É a crise do Estado-Nação e da política com a segunda revolução capitalista, com a globalização da economia com as mudanças da tecnologia e com as fusões gerando empresas gigantes cujo peso, às vezes, é mais importante do que muitos Estados. Os negócios de General Motors são superiores em números ao PIB da Dinamarca. Os da Exxon-Mobil ultrapassam o PIB da Áustria. Cada uma das cem maiores empresas globais vendem mais do que exportam cada um dos 120 países mais pobres. Essas firmas controlam 70% do comércio mundial.
Segundo Ignácio Ramonet, editor do ‘‘Le Monde Diplomatique’’, os dirigentes colocam todo o peso desse poder sobre as decisões políticas. ‘‘Eles confiscam, em benefício próprio, a democracia’’, afirma o jornalista.
Ramonet diz que mais necessários do que nunca os contrapoderes tradicionais, como os partidos políticos, os sindicatos, a imprensa, são pouco operantes. E os cidadãos se perguntam quais iniciativas audaciosas restabelecerão, para o novo século, o contrato social contra o contrato privado?, constata espantado o editor do ‘‘Monde’’.

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