''O Brasil está mudando em paz. A esperança venceu o medo. Hoje eu posso dizer para vocês que o Brasil votou sem medo de ser feliz'', Luiz Inácio Lula da Silva.
Não faz vinte anos que o Brasil passou a votar novamente. Antes, ficamos mais de vinte anos sem votar para presidente, governadores e prefeitos das capitais, a ditadura militar censurava, prendia, sumia e matava a liberdade e as pessoas, tudo fazia, sem escrúpulos, para manter os generais no poder.
Democracia, palavra que sintetizava o sentimento da sociedade, sempre sufocada pelo arbítrio, opressão e obscurantismo. O povo não sabe votar, expressão sempre lembrada, cunhada até como verdade absoluta, servindo para escamotear o pleito em favor do voto.
Claro, o povo não sabia votar. Afinal, não votava, não praticava a democracia, a população tão ocupada para tentar defender-se do jugo do poder verde oliva.
Errando, o povo está demonstrando que quer acertar, votando. Quer a alternância do poder, essência da democracia. Uma alternância que precisou mais de quarenta anos para ocorrer, ou seja, o atual presidente, eleito pelo povo, irá entregar o cargo para outro, que será presidente também eleito pelo povo.
O povo é soberano, ficou evidenciado nas suas escolhas. Ficou caracterizado no gesto de José Serra que, tão logo demonstrado o resultado, cumprimentou Lula, o eleito. Pode ser uma cena corriqueira. De fato é, mas agora, pois não faz muito tempo Figueiredo saiu pelos fundos do Palácio; Collor foi cassado.
As instituições a cada processo eleitoral amadurecem. E na democracia a instituição imprescindível é o voto. É como feijoada que necessita de muitos ingredientes, mas que não pode dispensar jamais o feijão, que neste caso é o povo decidindo, escolhendo. É a legitimidade do poder oriundo da vontade caracterizada pelas urnas.
Sim, há muito que caminharmos, a própria democracia precisa deixar de ser mais uma formalidade para tornar-se efetivamente substancial, tal qual a política que não mais pode ser encarada como apenas e tão-somente como sendo um período eleitoral. Mas é igualmente reconhecer nesta caminhada que estamos nos distanciando de sombrios períodos. Paulatinamente começamos a despertar para uma consciência voltada para o poder, o poder instituído pelo povo, dele emanado.
O velho Estado brasileiro, clientelista e perdulário carece de ser substituído por um Estado moderno. O povo percebeu claramente isto. Não quer governos a estenderem as mãos para dar-lhe migalhas sob a forma de programas paternalistas. O povo quer emprego e com o produto do seu próprio esforço no trabalho edificar o seu próprio teto, prover os seus filhos com uma boa escola, saúde, água tratada, lazer, segurança.
O povo fez a sua parte, fazendo a escolha que julgou a melhor. Em sã consciência ninguém quer escolher por escolher, muito menos optar pelo pior.
Estamos conseguindo conciliar palavras como sentidos próprios e até mesmo díspares, mas que acabam completando-se, tais como passado e futuro; direito e dever; sonho e realidade; discurso e prática; ação e omissão; passos e compassos; País e Nação; e Brasil e Brasil.
Inegavelmente a escolha pelo voto, secreto, livre, universal é o ponto maior da democracia que não se faz sem liberdade. Cabe salientar que o voto em si mesmo apenas encerra uma importantíssima etapa para que, em seguida outra seja colocada em curso, a conjunção entre Estado e Sociedade, como lembra o professor de Teoria Política da Unesp Marco Aurélio Nogueira:
''Na verdade, precisamos encontrar os meios de pôr em curso uma prática cotidiana que invada as instituições mas seja maior do que elas; que promova a reunião do social - seus movimentos e seus conteúdos programáticos - e do institucional, dando uma outra qualidade à política como poder, administração e decisão. Isso significa pôr em curso uma ação coletiva de desmascaramento, dedicada a desnudar o cinismo, as mentiras. Trata-se de impregnar a política de cultura, impondo uma outra idéia de Estado, de progresso, de sociedade''.
JOSÉ EUGÊNIO MACIEL é advogado, sociólogo, professor e membro da Academia Mourãoense de Letras

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