Poder e pudor
Nada desmoraliza mais a política do que a falta de pudor no uso do poder. Mas parte da opinião pública parece convencida de que pudor e poder não andam juntos.
O desprezo dos jovens pela política deve-se ao individualismo generalizado que leva muitos deles a desprezar a parte nobre da política, que é a procura da causa pública e o serviço dos interesses públicos. Também a mediocridade das pequenas causas, sem as grandes causas utópicas, deixa a política pequena e os jovens a repudiam. Mas esse desprezo se deve, sobretudo, ao despudor como o poder vem sendo exercido.
Ao perceberem que boa parte da política se faz apenas pelo poder, sem a definição de seus propósitos maiores de mudar o mundo; que o poder é usado em benefício próprio do político, sem objetivos sociais maiores; que algumas alianças visam apenas ao poder, sem definir o que será construído depois, os jovens, lúcidos e enojados, se afastam da política.
A política brasileira dos dias de hoje é um exemplo da falta de pudor no exercício do poder. É exemplo vivo de como a política começa a ser corroída pelo despudor quase generalizado.
A importância dada ao marketing por cima do conteúdo dos programas de governo é uma forma despudorada de fazer política, sobretudo quando se faz o marketing usando mentiras e manipulações contra os eleitores. A atual campanha eleitoral está eivada desse despudor.
As falsas promessas durante as campanhas são uma forma de despudor político. O político mentiroso sacrifica o pudor pelo poder. A falta de vergonha permite aos políticos cobrarem do povo impostos para pagar propaganda para enganá-lo, mostrando realizações irreais, ou cujos resultados não são os apresentados. É o despudor que permite ao parlamentar mentir descaradamente, mudar de partido como se fosse uma roupa de domingo, trair seus eleitores.
A corrupção é a forma mais generalizada de despudor político. Mas não é a mais grave. Ainda mais grave do que os atos de corrupção dos políticos é a corrupção que ela provoca nos eleitores. O lema rouba mais faz é um exemplo do despudor que contamina os eleitores. A falta de pudor começa a ser vista como uma prova da competência do político.
Para que a política volte a ter nobreza e atraia os jovens, mais do que alijar os políticos corruptos é preciso lutar para que o pudor conviva com o poder, tanto entre os candidatos quanto entre os eleitores.
Para isso, em primeiro lugar é preciso alargar os propósitos da política, incorporando nela a causa pública; enquanto não voltarmos a ter utopias, propostas e sonhos, a política continuará a ser medíocre e despudorada. Segundo: exercer a política com honestidade, sem tentar tirar dela qualquer vantagem, além do próprio prazer de seu exercício e o privilégio do reconhecimento público e histórico. Em terceiro lugar, e sobretudo, é preciso criar uma consciência, entre políticos e eleitores, que leve ao abandono do poder, sempre que sua conquista ou manutenção exigir o sacrifício do pudor.
Essa última talvez seja a mais difícil, porque muitos políticos e eleitores parecem estar fazendo um pacto de aceitação do despudor, chegando ao ponto de considerar que a falta de vergonha é uma qualidade, como se a política fosse um jogo de enganação mútua e aceita entre todos os atores da democracia. A política vista como um jogo faz com que o pudor se transforme em um estorvo do poder. Perder o pudor virou uma condição para ganhar o poder.
Os dois grandes desafios políticos dos próximos anos, no Brasil e no mundo, está em formular utopias que ofereçam grandes causas públicas, e fazer com que o pudor seja visto como um aliado do poder, não como estorvo. Sem isso, vamos continuar sem empolgar os jovens, porque eles ainda têm pudor e buscam grandes causas.
CRISTOVAM BUARQUE é professor da Universidade de Brasília (UnB)





