Poder da reação popular contra abusos
Atitude como a do escritor Domingos Pellegrini, protestando pelo tempo excedente na fila no banco em que se encontrava, em Londrina, e dando voz de prisão ao gerente, é um momento de triunfo da cidadania. Se as pessoas imaginam que não têm poder, ele existe e funciona, bastando acioná-lo. É da Constituição que um cidadão pode dar voz de prisão a outro, se flagrado em delito ou na iminência de cometê-lo. No caso, o gerente foi levado à Delegacia de Polícia, com a participação de um policial. Se ele não ficou preso, ao menos gerou-se, com o ato da detenção, uma situação de justificado constragimento para o banco, e constituiu um exemplo e um encorajamento para aqueles imbuídos do suficiente espírito de cidadania e destemor para fazer o mesmo. As filas são comuns, não apenas nos bancos, mas estes abusam porque não colocam caixas suficientes, e mesmo que elas existam, os atendentes não estão em todas. Essa prática é uma medida de contenção de gastos, para que lhes sobre mais lucro, se não bastassem as fortunas que amealham por conta de uma política econômica governamental que contempla o sistema financeiro, permitindo-lhe ganhos exorbitantes. Não há força maior que a do povo, e se todos os que se encontram em filas demoradas, por abuso de quem as impõem ou outras situações de desrespeito procedessem como fez o cidadão Pellegrini, muitos abusos cessariam. As redes bancárias buscam clientes, e o fazem com intensiva propaganda, mas não acompanham o atendimento no mesmo ritmo. Ocorre então uma natural sobrecarga de serviço. E se o quadro de pessoal não é abastecido suficientemente, mas, ao contrário, funcionários são retirados dos caixas como medida de mesquinha economia, então acontecem as filas e as longas esperas. Também os direitos dos idosos não são plenamente respeitados, porque eles têm de ser atendidos prioritariamente em todos os caixas e não apenas naquele que lhe é destinado. Outro abuso ocorre nas filas da Previdência, e nesse caso o mal se agrava porque se trata, em grande parte, de pessoas doentes. E isto ocorre porque não há a suficiente provisão de pessoal de atendimento. Supõe-se que, tratando-se de repartição pública, impere o conceito de que o cidadão não é tão importante e que os que ali vão são ''atendidos de graça'' mas sabidamente não é isto, porque todos recolheram contribuições, durante décadas, para ter ao menos atendimento de saúde. São os desregramentos do sistema de atendimento, emanados de antigos vícios das instituições públicas. No caso dos bancos oficiais ou privados eles têm um certo amparo institucional e também guardam alguns ranços de repartição pública, por isso não dão muita atenção à figura humana do cliente e sim à figura numérica que ele representa e que pode deixar-lhe algum lucro. O episódio da voz de prisão ao gerente de banco, partida de um homem do povo, foi um saudável evento de cidadania. É dessa forma que se consolida a democracia.





