O católico, de um modo geral, está com grande dificuldade para entender e assimilar a mensagem da Bíblia. Falta atenção às leituras durante as celebrações. Outro obstáculo é o uso exagerado de recursos tecnológicos, como o celular e a internet, considerados indispensáveis pela sociedade moderna. Muita gente prefere acessar as ferramentas tecnológicas a megulhar nos Textos Sagrados.
O alerta é do arcebispo de Londrina, dom Orlando Brandes, que aponta que a Bíblia atualmente serve apenas de enfeite na maioria das residências, o que causa um fenômeno que define como ''analfabetismo bíblico''. Ele sugere que seja realizada uma mobilização bíblica em âmbito nacional para reverter essa situação.
''A palavra de Deus vai ajudar a Igreja a construir uma sociedade justa, fraterna, solidária, tal e qual sabemos que esse é o sonho de Deus e do Reino de Deus'', afirma. Por isso, ele defende uma campanha nacional de valorização da Bíblia.
Como seria essa mobilização bíblica que o senhor propõe?
A mobilização bíblica, como a própria palavra diz, é um grande trabalho com o povo no sentido de que as Sagradas Escrituras sejam divulgadas, conhecidas, interiorizadas, amadas. A mobilização significa um grande esforço, uma grande motivação comum. É o tipo de uma campanha nacional para que a Bíblia ocupe o primeiro lugar na nossa vida, aquilo que nós chamamos de primado, ou prioridade, da Bíblia. Por isso mesmo, nós católicos precisamos dessa mobilização porque estamos muito afastados da Bíblia, de um lado, e até sofremos de um certo analfabetismo bíblico. A nossa esperança é que o cristianismo seja um cristianismo bíblico e a Igreja Católica seja mais bíblica do que ela é.
Por que ocorre essa dificuldade em assimilar a mensagem da Bíblia?
A história aí é muito antiga. Em primeiro lugar, o nosso povo, desde a catequese, tem um catecismo e não tem (o acesso) à Bíblia. Em casa, nós não aprendemos com nossos pais a abrir as Escrituras. E houve, em períodos passados, a quase proibição da Bíblia por causa do Antigo Testamento, no qual parece que Deus é violento. São coisas que a gente precisa realmente ter conhecimento bíblico para entender toda a história do momento, a cultura, as circunstâncias em que a palavra se Deus se manifestou. Nós seguimos a linha dos sacramentos e esquecemos bastante esse amor bíblico. E não só o estudo da Bíblia é importante, mas também esse conhecimento, esse amor, essa meditação, essa internalização e essa vivência da Bíblia.
A gente poderia dizer que a falta de incentivo da própria Igreja no passado se reflete nos dias de hoje?
Reflete muito. Costumo dizer que a nossa Igreja é sacramentalizadora. Quer dizer, nós lutamos para batizar, para crismar e para celebrar casamentos na Igreja. Isso está certo, mas estes sacramentos precisam vir animados pela Palavra. Nós, verdadeiramente, estamos ainda no analfabetismo bíblico, vamos dizer assim, porque hoje, na verdade, nós sabemos abrir a internet, sabemos abrir o computador, abrir o celular, mas o povão ainda não sabe abrir a Bíblia, não sabe interpretar a Palavra e tem dificuldade, claro, de vivenciá-la. Nós temos aí um desafio muito grande para nos tornamos então uma Igreja bíblica e termos um catolicismo bíblico.
E como seria esse catolicismo bíblico?
Nós católicos devemos amar mais as Escrituras, dar à Bíblia a importância e a primazia que ela tem em nossa vida e a gente entrar definitvamente nesse santuário que é a Palavra de Deus, tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento. E entrarmos, por aquilo que o próprio Papa pede, que foi sempre a história da igreja, pela Leitura Orante da Bíblia. Este é um método muito bom de a gente ler, aprender e até animar-se em estudar as Escrituras.
E o que a Arquidiocese de Londrina está fazendo em termos de mobilização bíblica?
Nós aqui em Londrina, graças a Deus, estamos incentivando muito e fazendo muitos exercícios da Leitura Orante. O povo está entusiasmado porque vai descobrindo esse tesouro que é a Palavra de Deus. Nós temos o Dia da Palavra, que se transformou até em Dia da Palavrinha para as crianças. Acentuamos a prioridade da Bíblia na catequese. Temos mais ou menos 3 mil grupos bíblicos de reflexão nas casas e ali a Bíblia tem prioridade. Nós estamos sempre incentivando cursos bíblicos e diversas paróquias que já têm o seu curso bíblico. Nós temos a experiência de sacerdotes que se reúnem para preparar a sua homilia dominical em grupo e isso é uma grande esperança. E vamos devagarzinho levar os salmos para que o povo reze os salmos antes da missa. Então vamos abrindo todos os espaços onde a palavra de Deus possa entrar.
Além da leitura orante e dos grupos bíblicos, o que poderia ser feito para estimular o que o senhor define como povão?
O povo tem sede e fome da Palavra. E nós precisamos facilitar o acesso do povão às Sagradas Escrituras. De que maneira? Primeiro, vamos tornar a Bíblia mais barata para o povo ter a Bíblia nas mãos. A Bíblia não pode ser cara. Nós temos que achar diversas maneiras de fazer a Bíblia livro chegar nas mãos do povo. Segundo, ensinar o nosso povo a abrir a Bíblia. É dar treinamento. Depois, ensinar ao povo que todos na família precisam ter a sua Bíblia e saber esses passos primários de abrir, de como ler e de como interpretar a Bíblia, o que requer um pouco mais de estudo. E o quarto passo é a gente conseguir vivenciá-la, colocá-la em prática na vida de cada dia.
Diante desse analfabetismo bíblico, a gente poderia dizer que a Bíblia está servindo apenas de enfeite nas casas?
Infelizmente é isso. A Bíblia, de um lado, virou um enfeite. De outro lado, ela virou um livro de estudos. Por exemplo: nós, na nossa Teologia, estudamos a Bíblia, mas nem sempre saimos com um coração bíblico dos nossos estudos teológicos. E também, infelizmente, a Bíblia se tornou até alvo de intrigas e de brigas entre religiões por causa da interpretação. E se tornou até um livro morto para muitas pessoas. Nós nos afastamos da Palavra por tantas razões que precisamos recuperar este caminho perdido.
O senhor acha que as pessoas voltariam para a Igreja se entendessem melhor os textos sagrados?
Sem dúvida nenhuma. O grande objetivo dessa mobilização bíblica é as pessoas se reencantarem com Jesus Cristo. E uma pessoa que se reencanta com Jesus, que é fascinada por Ele, e que tem um impacto desse encontro, uma experiência de Cristo na Bíblia, é claro que esta pessoa vai se tornar cada vez mais participante da Igreja e muito mais missionária. Sem a Bíblia, o missionário é fraco. A palavra de Deus também vai ajudar a Igreja a construir uma sociedade justa, fraterna, solidária, tal e qual sabemos que esse é o sonho de Deus e do Reino de Deus. Não basta a gente ter teorias dessas coisas, mas temos que ter essa experiência, esse encontro, esse encantamento, e daí sim, toda a Igreja Católica certamente vai ter uma sacudidela, uma comoção, uma mexida grande a partir das Sagradas Escrituras.


Não apren­de­mos com nos­sos ­pais a ­abrir as Es­cri­tu­ras


Bí­blia se tor­nou al­vo de in­tri­gas en­tre re­li­giões por cau­sa da in­ter­pre­ta­ção

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