Partilha de vivências, descoberta de soluções para os problemas, superação. É o que propõe a Terapia Comunitária Integrativa (TCI) - tratamento que tem como meta prevenir doenças e promover a saúde por meio de discussões em grupo. Quem busca este tipo de terapia sente-se acolhido e encontra nas palavras o conforto que necessita. É o que garante o criador desta modalidade de terapia, Alberto de Paula Barreto, que é doutor em Psiquiatria e Antropologia e licenciado em Filosofia e Teologia.
Segundo ele, a TCI permeia os múltiplos aspectos da construção social e atua de forma significativa no tratamento de dependentes químicos. ''Um dos principais objetivos é valorizar o indivíduo para que possam descobrir seus valores e suas potencialidades, tornando-se cada vez mais autônomos'', explica Barreto, que ministra hoje em Londrina a palestra ''Terapia Comunitária: é melhor promover a saúde hoje pelo reforço dos vínculos sociais do que combater a doença amanhã com remédios e hospitais'', dentro da programação do VIII Simpósio da Faculdade Integrado Inesul (Sinesul) e IV Simpósio Internacional.
Em entrevista à FOLHA, ele afirma que apenas 11,5% das pessoas que passam pelas rodas de TC necessitam de encaminhamento para os serviços de saúde. ''A terapia comunitária está sendo implantada no SUS. Não temos a pretensão de substituir os outros serviços da rede de saúde, mas complementá-los'', enfatiza.
Como funciona a terapia comunitária?
Temos algumas regras de funcionamento: não dar conselhos, não julgar, não fazer análises nem interpretações e falar de si usando a primeira pessoa, o eu. Dependendo do tema discutido sugerimos músicas, histórias, piadas ou provérbios. Antes de selecionarmos um tema a ser debatido estimulamos as pessoas a falarem de seus sofrimentos. O ponto de partida da roda de terapia comunitária é uma situação apresentada por alguém e escolhida pelo grupo. Aos poucos a pessoa vai descobrindo que a superação dos problemas não é obra particular de um indivíduo, mas da coletividade. Na terapia comunitária, a palavra é o remédio, o bálsamo, a bússola para quem fala e para quem ouve.
A presença dos outros não pode inibir o paciente e comprometer o resultado da terapia?
Na terapia comunitária não existem pacientes nem doentes. São pessoas comuns que encontram na terapia um espaço de acolhimento do sofrimento do cotidiano. É uma ação de prevenção de dioenças e de promoção da saúde. Pertencer a uma rede de apoio, ter acesso a recursos afetivos e de ajuda mútua na comunidade gera um sentimento de ser reconhecido, amado e apreciado, o que produz um efeito particularmente protetor sobre a saúde.
Quais os principais problemas que são levados para as rodas?
Os temas que se destacam são estresse e emoções negativas, conflitos familiares, dependência de álcool e outras drogas, questões ligadas ao trabalho, depressão, abandono e violência.
Onde esse tipo de tratamento vem sendo aplicado?
Em diferentes contextos e com diversas populações, especialmente com os socialmente marginalizados e excluídos. A terapia comunitária já faz parte da política pública da Secretaria Nacional Antidrogas. Capacitamos cerca de 800 terapeutas comunitários com ênfase em questões de álcool e outras drogas. Eles estão atuando nos grandes centros urbanos. Além disso, nestes dois últimos anos foram capacitados 2 mil terapeutas comunitários junto ao Programa Saúde da Família junto ao Ministério da Saúde. A terapia comunitária já foi implantada em quase todos os estados, dentre elas nas prefeituras de São Paulo, Salvador, Londrina, Brasília, Fortaleza, Santos e outras.
Qual a vantagem da terapia para o sistema de saúde?
A TC reduziu a demanda por serviços especializados. Apenas 11,5% das pessoas que passaram pelas rodas de TC necessitaram de encaminhamento para os serviços de sa© úde. Diante disso, a terapia comunitária está sendo implantada no SUS. Há dois anos estamos capacitando terapeutas para atuarem na estratégia de saúde da família. A grande vantagem é que se faz uma triagem das patologias que precisam ser encaminhadas para psiquiatras e psicólogos. A TC não tem a pretensão de ser uma panaceia nem de substituir os outros serviços da rede de saúde, mas complementá-los.
Como a terapia comunitária atua junto aos dependentes químicos?
A terapia comunitária não tem como proposta realizar o tratamento das dependências, mas poderá contribuir de forma significativa em cada uma das suas etapas, atuando diretamente junto aos dependentes ou, de forma indireta, através de ações com as famílias, membros das comunidades e equipes de profissionais. As rodas de TC têm tornado as pessoas menos dependentes das instituições, menos oprimidas pelos próprios problemas, com maior autonomia na busca de superação das dificuldades.
Quem pode ser terapeuta comunitário?
A pessoa deve ter formação em terapia comunitária sistêmica integrativa de 360 horas, aceitar trabalhar em equipe numa perspectiva transcultural, ser legitimado pela comunidade e sentir-se corresponsável pela construção de uma cultura solidária, além de estar aberto a inovações. Todo dogmatismo ideológico é gerador de dominação e exclusão.

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