O que você faria se de repente descobrisse que existe um outro ser igualzinho a você? Esta é a pergunta que muitos fazem quando o assunto em discussão é a clonagem e que vem sendo amplamente discutido e apresentado através de filmes e novela. Pois dentre os novos paradigmas criados no século 21, um diz respeito à clonagem de seres vivos, aumentando a discussão quando o mesmo é aplicado à clonagem de seres humanos.
A filosofia sempre aceitou e pregou que todo ser, em sua essência, é uno, belo, bom e verdadeiro. O que quer dizer isto? Ser uno, quer dizer que não existe nenhum ser igual ao outro. As características externas até podem ser idênticas, mas a essência do ser é bem diferente. Por mais que eu acredite que estarei perpetuando a mim mesmo, permitindo a clonagem de uma célula, na realidade estou perpetuando apenas o meu DNA, pois a minha essência, o meu eu particular, este estará gozando da eternidade, mas agora no mundo espiritual, aquele que transcende a qualquer manifestação física do ser.
É de conhecimento de todos que dois seres vivendo num mesmo ambiente e tendo os mesmos estímulos acabam por fornecer respostas diferentes. O exemplo familiar é o clássico neste caso, pois uma família que educa seus filhos gêmeos univitelinos (gêmeos idênticos, com a mesma carga genética) no mesmo ambiente, com os mesmos princípios, sejam eles religiosos, culturais e filosóficos, acabam tendo surpresas, pois o que ocorre é a diferença da água e do vinho. O caráter e a personalidade do primeiro nada tem a ver com o segundo e vice-versa. Muitos filhos, pelo próprio ambiente e exemplos, até seguem o mesmo caminho dos pais ou irmãos mais velhos, e como dizemos, ‘parece que está no sangue’. Mas nada nos indica que isso seja herança genética, como se obrigatoriamente o filho de um matemático terá que ser um matemático nas mesmas condições do primeiro.
Isso nos abre a discussão para um terceiro ponto, que é justamente o fato de que muitos acreditam que com a clonagem de seres humanos, será possível ressuscitar grandes líderes, pensadores, heróis do público e assim por diante. Com certeza, do ponto de vista genético, isso é possível, mas jamais serão as mesmas pessoas ou o mesmo eu que deram origem às células clonadas. Poder-se-á clonar o Pelé e o seu clone até ser um grande músico, mas talvez nunca um grande jogador como foi o nosso Edson Arantes.
Discutidos estes pontos, podemos dizer que a grande vantagem da pesquisa sobre a clonagem de seres será a possibilidade da criação de órgãos vitais para transplantes em pessoas que se encontram na fila de espera de um hospital.
Porém, as desvantagens são bem maiores, por isso a necessidade de uma discussão mais séria sobre o assunto. Ainda somos vítimas das lembranças da Segunda Guerra, na qual muitos morreram nas mãos de cientistas que queriam a criação de uma raça pura. A clonagem, mal administrada e em mãos de líderes perversos, possibilita a criação de um exército de pessoas com as mesmas características físicas, como foi a tentativa dos governos da Esparta Antiga, com a diferença de que não usavam o clone e sim a eliminação daqueles que nasciam com defeitos físicos. Daí para o surgimento de uma raça que seja pura é só um pulinho. O restante é só imaginar.
Esta desvantagem abre uma outra discussão que é a questão do ser enquanto ser. O fruto de uma clonagem é um ser humano ou apenas uma experiência genética que pode ser manipulada? Desta forma, alarga-se a discussão nas fronteiras da religião e da ética, que, com certeza, é muito mais ampla do que a discussão científica. Um ser humano, independente da forma como foi criado, é um ser humano e enquanto ser é uno, bom, belo e verdadeiro. Ou seja, possui a essência do ser e jamais poderá ser descartado como se faz no preparo de um objeto para o consumo. O que, infelizmente, acontecerá na busca de uma raça pura ou na formação de um exército perfeito. Pois o que ocorrerá é a manipulação de seres até chegar àquele que seja o ideal. Porém, não estamos falando de um objeto, mas de um ser que encerra em si toda a essência, aqui incluindo a alma, e que não pode jamais ser manipulado.
Tudo isso nos leva à questão central que é: pode o homem ‘brincar de Deus’? O homem nunca o fará, pois somente Deus é que pode criar algo a partir do nada, como está narrado no início do Gênesis. O homem utiliza-se somente da capacidade que lhe foi dada de crescer, multiplicar e dominar o mundo. Capacidade esta que pode ser utilizada para o bem ou para o mal, de acordo com os princípios e crença de cada um. Cabe a nossos líderes deixar bem claro, através de decretos ou leis, a fronteira da pesquisa genética, para que absurdos ou novos holocausto não venham a ocorrer.
LUIZ ANTONIO PEDRO é filósofo, historiador e professor da Uniandrade de Maringá e Faculdades Maringá

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