Pode-se produzir sem consumir? - Walmor Macarini
Pode-se produzir sem consumir?
Walmor Macarini
O superministro Pedro Malan e o presidente Fernando Henrique Cardoso não autorizam a baixa dos juros porque temem que as pessoas comecem a gastar. Querem investimentos estrangeiros, apregoam ideais desenvolvimentistas embora nem tenham um projeto para que isto se converta em realidade mas, incoerentemente, desestimulam o consumo.
O mundo atingiu uma era de tecnologia avançada, com maior produção e produtividade em menos tempo, menos custo e menor esforço, e a contrapartida desse avanço deve ser o consumismo, na mesma intensidade. Há um consenso universal sobre essa dinâmica.
Consumismo não é pecado. Se fosse, produção seria pecado maior.
Produzir e consumir, este o segredo. Não temos que dar ouvidos a essas vozes fora do tempo que abominam o consumismo, como algo abominável, qual um desvio de comportamento, uma praga social. Ora, ninguém consome mais do que as próprias necessidades, até porque, se for um consumidor orgânico, não absorverá mais do que pode suportar. Também não vestirá ao mesmo tempo duas camisas nem calçará dois pares de sapatos. Se a pessoa tem posses para comprar duas unidades da mesma coisa, que as compre. Tudo o que consumimos a fábrica produziu, e o agente da produção foi um trabalhador, que através do consumo garante o emprego.
O consumismo não escraviza ninguém. O que escraviza é a limitação, o querer consumir e não poder. Ausência de consumo é sinônimo de estagnação e isto significa desemprego e miséria social.
Se produzimos e consumimos, mais iremos produzir, e mais produzindo mais empregos permitimos, e com mais empregos teremos mais ganhos, que representarão mais poder de compra. Com mais produção e consumo, o governo arrecadará mais tributos, e com mais dinheiro executará mais obras, que afora proporcionar bem-estar aos cidadãos consumirão mais matéria-prima, possibilitando mais giro de dinheiro e, voltando ao princípio do círculo, mais empregos, e assim sucessivamente. Será a reação em cadeia, e o resultado não é outro senão a explosão desenvolvimentista.
Incrível que o superministro e FHC viajem tanto, vejam o exemplo de países altamente desenvolvidos como Estados Unidos, Canadá, Japão, a Comunidade Européia, e não aprendam. Esses países consomem não porque são ricos, mas são ricos justamente porque consomem.
Consumismo gera produção. Só imaginar produção sem a correspondente dinâmica do consumo é uma incongruência. Não faz sentido.
Além de alavanca do desenvolvimento, o consumo pari passu com a velocidade da produção ou a produção na velocidade do consumo induzem ao barateamento, porque com mais venda há busca de tecnologia mais veloz e mais econômica, resultando em mais produto em disponibilidade. Sem consumo não há melhores salários e sem melhores salários há menos consumo.
O temor de que as pessoas gastem mais do que ganham, e caiam na inadimplência, não faz sentido porque isto não é regra geral. O que há, no Brasil, é ainda a falta de hábito de consumir, porque a população sempre foi pobre. Quando todos comprarem tudo aquilo de que necessitam, e que entre nós é o básico, como geladeira e fogão, televisor e aparelho de som, microondas e máquina de lavar roupa, cama nova e colchão macio, relógio de pulso e telefone celular, comida farta e cerveja geladinha, aí passarão a direcionar melhor o uso do dinheiro. Evoluirão para a casa própria se ainda não a têm, ou uma mais confortável; pensarão em cuidar dos dentes, da saúde; no curso de inglês para os filhos; sonharão com a universidade, com o automóvel, com a viagem de férias. Por que não? Nos países desenvolvidos todos têm essas coisas, e brasileiro é igual às pessoas bem-de-vida deste mundo, porque tem os mesmos anseios, as mesmas vontades, os mesmos direitos.
O governo teme a inflação pela gastança, mas ele próprio favorece a inflação ao manter alto o custo do dinheiro, ao aumentar os preços das tarifas públicas, dos combustíveis, enfim de todos os seus serviços e de tudo aquilo que está sob seu controle.
E, ademais, por que temos que guardar nosso dinheirinho pouco que seja debaixo do colchão? Para que um dia os filhos e netos acabem brigando pela herança? Certa vez vi esta frase genial nas camisetas de um casal de turistas americanos: Estamos gastando o dinheiro dos nossos netos.
Vamos poupar algum dinheiro, sim, mas se guardamos no cofrinho toda a soma do já pouco que nos sobra, ou a aplicamos na caderneta de poupança, não contribuimos para gerar o desenvolvimento, ficaremos mais pobres e veremos crescer a pobreza ao nosso redor. Dinheiro é cigano, tem o instinto de mudar de lugar constantemente. Foi feito para a função de girar, ou não valerá nada.
Com essa política de estancar o fluxo do dinheiro, o presidente da República e seu superministro demonstram não confiar no Real, e estancam o Brasil. Todos estão querendo lhes mostrar isto, mas só os dois não percebem. FHC, ao que parece, tem ciúmes do seu Real: não quer que ninguém ponha a mão nele...
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





