Um dos temas que tem se evidenciado atualmente é o crescimento acelerado da violência em nível nacional. O debate esta no cotidiano das pessoas e o que imperou no imaginário social é que a pobreza é a sua principal causa. Este aspecto é verossímil quando visto com responsabilidade já que é impossível qualquer reflexão deste fenômeno se ignorarmos que na mesma proporção que a violência aumenta também a pobreza se expande.
  Equação cruel esta: pobreza versus violência que pouco tem incomodado aos ‘‘notáveis políticos’’ que têm se empenhado em legislar em causa própria sem nenhum compromisso que acene para a mudança deste quadro. Não é só no Paraná que temos assistido descalabros deste porte e o próprio Congresso Nacional tem dado verdadeiras lições, como o aumento que ultrapassa 50% dos salários dos parlamentares indicam que estes ‘‘notáveis’’ ignoram o que é viver ‘‘para’’ a política.
  Max Weber fala que há dois modos principais pelos quais alguém pode fazer da política uma vocação: viver ‘‘para’’ ou viver ‘‘da’’ política. A atuação de certos homens públicos tem sido este: viver ‘‘da’’ política, o que significa, ainda segundo Weber, ser um político profissional que faz da política uma fonte de renda permanente. As posturas dos parlamentares que reivindicam aposentadorias especiais, aumentos salariais, entre outros ‘‘benefícios’’, mostram a ausência do senso de responsabilidade.
  Talvez fosse necessário alguém dizer a esses senhores que, se para eles está difícil viver com uma renda de aproximadamente R$ 8 mil – com direito a regalias, em alguns casos, até auxílio paletó – imagine o cidadão comum, aqueles brasileiros muito pobres, com renda familiar mensal de R$ 180? Alguém precisa, com urgência, informar a esses ‘‘representantes de si mesmos’’ que, segundo o IBGE, as desigualdades sociais e econômicas afastam 54 milhões dos brasileiros em seus direitos mais básicos como educação, saúde, moradia, trabalho, esses direitos não são garantidos a 31,8% da maioria dos brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza. Esclarecer ainda a esses senhores que a nova violência que toma conta do Brasil, atinge preferencialmente os jovens e adolescentes pobres porque crescem sem oportunidade nenhuma.
  Enfim, se a maioria dos públicos vivessem ‘‘para’’ a política e não ‘‘da’’ política, provavelmente a pobreza seria mais tolerável e com certeza a violência não ultrapassaria o nível suportável. Pobreza e violência, associa-las exige responsabilidade de todos sob pena de continuarmos imputando às camadas pobres o ônus pela sua explosão. Há um culpado? Se há, com certeza não são os pobres, mas os notáveis que insistem em concentrar em poucas mãos a riqueza, neste caso, em forma de salários e benefícios à própria categoria. Esta é a maior de todas a violências por ser burocratizada, planejada e organizada em forma de leis contra o cidadão comum.
FRANCISCA VERGÍNIO SOARES, é socióloga e doutora em Ciências Sociais da PUC/SP, docente da UEL e UNINORTE

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