Pobreza e soberania - Rubem Azevedo Lima
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segunda-feira, 07 de dezembro de 1998
Rubem Azevedo Lima 
Os brasileiros estão ressabiados diante do surgimento de indícios que tradicionalmente marcam o começo do fim de todos os planos nacionais de estabilização monetária: a alta dos preços da gasolina, diesel e gás de cozinha; as indefectíveis negociações do Brasil com o FMI; um início discreto de desvalorização da moeda; e os ditos e feitos governamentais disparatados no plano social, econômico e financeiro.
Tais fatores não aparecem necessariamente nessa ordem. Os primeiros a surgir, no governo no Plano Real, do presidente Fernando Henrique, foram os últimos acima citados: empréstimos favorecidos do Proer a bancos quebrados; juros altos; salários congelados; dívidas interna e externa crescentes; privatização de estatais a preços vis com financiamentos públicos ou em circunstâncias escabrosas, conforme revelaram os grampos de conversas telefônicas do então ministro Mendonça de Barros e seus amigos banqueiros.
O conjunto das medidas de favor às custas do povo brasileiro forma o que se pode chamar de previsão dos ricos. Na Previdência propriamente dita, dos pobres, pretendeu-se, pelo visto, que estes pagassem a conta do empresariado responsável pelo não recolhimento de suas contribuições em tempo oportuno.
Dos aposentados - ofendidos pelo governo - que contribuíam para a Previdência quando trabalhavam - pensou-se em cobrar o pagamento de uma cota adicional até morrerem. Tentou-se ainda impor às pensionistas descontos em suas pensões e até se desqualificou o trabalho das mulheres.
No tocante ao elenco de medidas governamentais desastradas, deve-se admitir que o governo FHC pratica uma das mais anti-sociais de todas as políticas sociais impostas mundialmente pelo neoliberalismo. Tal sistema de exploração dos pobres pelos ricos está-se decompondo com rapidez. Assim sendo, talvez não consiga realizar, na extensão desejada, em escala mundial e no Brasil, o genocídio de todas as pessoas julgadas inúteis ao processo produtivo, pelo fundamentalismo dos neoliberais e da globalização.
Além desses inquietantes e paupericidas sinais, outros fatores agravam a crise brasileira. Para adquirir um dólar, com o qual nossa moeda tinha paridade, são necessários, hoje, entre R$ 1,20 e R$ 1,25. O preço dos derivados de petróleo, que baixara com objetivos eleitorais antes do pleito de outubro, ultrapassou bastante o anterior, na última sexta-feira. Por fim, o Brasil dobrou-se às exigências do FMI, às absurdas pressões da banca mundial, como dizia FHC quando senador de oposição.
Dá para crer que o Brasil, cujo governo, segundo o ex-vice-presidente Aureliano Chaves, não tem visão de pátria e vê os brasileiros como simples números, possa melhorar sob controle externo? Ao final do primeiro mandato de FHC, o povo mostra sinais de desespero e rancor explosivos. Foi o que se viu no Rio, quando o radicalismo dos descontentes com o governo atacou Dona Ruth Cardoso.
A paciência com FHC pode estar no fim. Mas ele terá de governar, por outro quadriênio, um país que ficou mais dependente e menos brasileiro ao vender seus ativos a troco de nada. Triste país cujas autoridades lamentam, agora, que o Legislativo nacional tenha contrariado o FMI, por votar, soberana e conscientemente, pela preservação dos direitos de viúvas, órfãos e aposentados.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília


