Repetidas vezes ouvimos dizer que o brasileiro é um povo solidário, como uma marca imprimida em nossa cultura que move nossos hábitos e costumes de forma espontânea e virtuosa. Porém, antes de nos deixarmos levar pelo senso comum que tende a repetir crenças e falas, que de tão repisadas tendem a ser aceitas como verdades absolutas, precisamos de uma reflexão mais cuidadosa dos fatos para nos definirmos como verdadeiramente solidários.

Primeiramente é importante conceituar solidariedade, que pode ser definida como o compromisso pelo qual as pessoas se obrigam umas às outras e cada uma delas a todas. Há uma responsabilidade recíproca e um interesse comum, que envolve empatia, generosidade, senso de justiça e capacidade de renúncia em favor do todo, o que impõe a desinflação do eu em favor do nós. Não é fazer para, mas fazer com. Pode-se arriscar dizer que a solidariedade é o traço valorativo mais nobre e decisivo para uma sociedade humanizada, sadia e sustentável.

Na pluralidade de sentidos atribuídos à solidariedade, dois são fundamentais e devem ser entendidos como complementares: no primeiro a solidariedade está relacionada aos laços de envolvimento e comprometimento mútuo, envolve indivíduos de forma espontânea e voluntária, movidos pelo sentimento de empatia, em que a dor do outro nos toca e nos faz agir.

O segundo tipo de solidariedade, é mais elaborado e racional, está ligado à dimensão institucional, ao plano dos direitos. Ultrapassa-se o voluntarismo e a mobilização afetiva - que por mais bem intencionada, sempre é limitada e facilmente recai em relações de poder e subserviência - e se passa a lutar por transformações mais profundas nas próprias estruturas sociais.

Estamos mal nos dois tipos de solidariedade. Na solidariedade voluntária, o Brasil vem despencando no ranking internacional, segundo o World Giving Index ocupamos atualmente o 91º lugar, enquanto em 2010, o País ficava na 76º posição. Percebe-se, cada vez mais, que o cuidado com o outro limita-se a migalhas, a sobras que abrem espaço na prateleira para novas compras.

Quando a análise concentra-se na dimensão da solidariedade institucional o desastre é ainda maior. Qualquer indicador socioeconômico nos coloca entre os países mais desiguais do mundo. De acordo com o estudo World Inequality Report, o grupo que representa o 1% mais rico da população brasileira detém 28% de toda a riqueza do País (o maior nível de concentração do mundo) e pior, tudo isso é visto como natural.

Como resultado dessa patologia social, que pode ser definida por egoísmo ou indiferença, o Brasil se torna um dos países mais inseguros do mundo com aproximadamente 60 mil mortes violentas por ano. Mas em vez de se atacar a raiz do problema, que está na polarização entre ricos e pobres, e na falta de alternativas e oportunidades para os jovens das periferias, continuam-se a priorizar formas paliativas. Combate-se violência com mais violência, manifestações populares são vistas como desordem e movimentos sociais como baderneiros e no final, nada muda.

Convivem dois mundos que não se reconhecem e erguem-se muros para distanciá-los. Naturalizaram-se as desigualdades e a miséria, e as iniquidades socialmente construídas são transferidas para os indivíduos, como se cada um tivesse o que merece. Desprezam-se projetos que propõem a inclusão, sempre com a desculpa que cada um deve cuidar de si mesmo. Sempre paira a ameaça de se perderem privilégios ao se mexer nas relações hierárquicas de subserviência, o que demonstra o traço escravocrata que ainda acompanha uma boa parte da população. Conforme escreveu Nicolas Chamfort, literato francês do século XVIII: "E preciso ser justo antes de ser generoso".

LUÍS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS, economista, doutor em ciências sociais e professor da UEL

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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