Pobre é perdulário
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sexta-feira, 24 de agosto de 2001
Alexandre do Espírito Santo 
Leio em seis línguas e não sei de um verbo mais expressivo do espírito de um povo pobre que o verbo gastar. Com exceção dos miseráveis, o pobre é pobre porque gasta irracionalmente, não porque ganha pouco. Ele não emprega o dinheiro em equilíbrio com o que ganha; gasta, desgasta, destrói. É pessoalmente desorganizado. Não apenas por falta de educação. A raiz de tal desorganização pessoal está mais embaixo.
A desorganização pessoal é mais ou menos atávica. Presumivelmente, vem da genética dos ancestrais, perdida no tempo. Talvez, dos bonobos os chimpanzés que partilham conosco o maior percentual genético. Vivem para os prazeres do degustar e do procriar. Fazem sexo até 20 vezes por dia, até com o inimigo, para resolver conflitos. Indígenas mais atrasados têm hábitos semelhantes: a comida de um dia de caça tem que ser comida no dia. Outro dia pode não existir no chavascal da incerteza.
Uma outra teoria é que o desenvolvimento cerebral da criança e também do adulto está fortemente conectado com a nutrição (''Scientific American'', fevereiro, 1996). Pobre é desorganizado para empregar dinheiro e possíveis bens como o é para planejar o futuro próximo, dar sequência a uma ação, e até a uma conversa. Mesmo ainda jovens, telefonam para dizer algo, conversam até dez minutos sobre qualquer coisa, e desligam sem dizer o que chamaram para dizer. Não é que esqueceram; apenas não se importam com o gasto.
As ações perdulárias dos pobres são bem conhecidas: desperdiçam irresponsavelmente desde água e eletricidade até comida. Consideram humilhante fazer economia. Mesmo com alguma educação, a desorganização não é muito diferente. Não são consistentes no emprego; seus propósitos são vagos; quase nunca aprendem inteiramente qualquer habilidade; memorizam apenas o essencial para sobreviver; não são eficientes no uso do que lhes custa ganhar, e praticam o desproveito com uma doentia satisfação íntima.
Com muita caridade cristã, atribuiríamos esses comportamentos à má nutrição do pobre. Sabidamente, ela leva a um irreparável déficit cognitivo. Não se pode dizer que é um desequilíbrio cerebral, mas somos tentados pela hipótese de uma raiz mais profunda, que a educação, com menos de doze anos de escolaridade, não começa a corrigir. Insuficiente desenvolvimento cerebral e hábitos atávicos não se resolvem em poucos séculos. Considerando que não vivemos nem um século, nenhum de nós verá o status quo melhorado. Só proteínas não bastam.
Considerando que o emanado do povo volta para o povo, nossos executivos públicos não estão livres dos atavismos oriundos do passado remoto. Alguns saíram da roça, mas a roça não saiu deles. São perdulários como a maioria dos pobres. Não empregam o dinheiro público, gastam-no emocionalmente. As 41 obras públicas inacabadas em Curitiba são indicadores simples de tais atavismos que vêm em cadeia inerente ao chimpanzé > bonobo > homo sapiens > índio > colono > mal nutrido > pobre > insuficientemente desenvolvido.
Quando se vem dessa cadeia, a pobreza é autoperpetuante: o dinheiro não é empregado, é gasto; nada se poupa para o futuro; vive-se para os prazeres de qualquer intensidade; procria-se irresponsavelmente; cultiva-se os maus hábitos dos imaturos; adota-se as atitudes dos perdedores; desconsidera-se o passado e se vive para o presente; não se aprende com a experiência; dissipa-se o tempo; não se tem prioridades; o esforço, de fôlego curto, só se faz quando não se tem alternativa; e, ironicamente, sente-se um certo orgulho de ser pobre e pertencer à grande massa.
- ALEXANDRE DO ESPÍRITO SANTO é professor universitário em Londrina


