''Ubi maior minor cessat'' (''Diante do superior, o inferior anula-se'') é um ditado de origem medieval que tem muito a ver com o momento político brasileiro e, particularmente, com a escolha do próximo presidente da República. Ao se procurar inserir o conceito no ambiente político-social, depara-se, inicialmente, com a questão: que critérios orientarão a decisão dos eleitores? A primeira resposta, dada pela psicologia, mostra que o palanque interior dos cidadãos reflete a representação do que se passa no palco exterior, sendo esse palco externo o conjunto de sensações, captadas por meio de associações mentais. Se o melhor dos mundos é aquele em que cada um está contente com a vida, a decisão dos eleitores tende, em época de eleições, a favorecer o candidato que mais contribui para o estado de felicidade das pessoas. Um candidato que for ameaça ao equilíbrio social será mais rejeitado.
Esta visão abre outra indagação. No Brasil atual, o estado de satisfação social supera o estado de indignação da população ou, de outro modo, o índice de segurança econômica do país é algo mais forte que o índice de segurança social? Na dualidade entre estabilidade monetária versus estabilidade social, escondem-se alguns dos mais intrigantes fatores que determinarão a eleição presidencial de 2002. Não há como deixar de se admitir, diante de baterias de pesquisas já divulgadas, que, nos últimos anos, tem crescido vertiginosamente um PNBinf (Produto Nacional Bruto da Infelicidade), somatória de angústias sociais, que agregam, entre outros componentes, a violência generalizada, o desemprego, a precarização das estruturas de serviços básicos essenciais e a vida desconfortável das metrópoles.
O cenário externo, quando se abriga no íntimo de eleitores, submete fatalmente o processo decisório ao dilema: votar em um candidato que vai representar a continuidade, por mais quatro anos, ou mudar a situação? Até as eleições, outros elementos entrarão no mecanismo psíquico dos conjuntos sociais. Entre eles, uma previsível recuperação da imagem do presidente Fernando Henrique, pela possibilidade de que o quadro macroeconômico, não chegando a níveis exacerbados de deterioração, elevará seu poder de fogo, resgatando vetores de força e condições efetivas para levar o candidato situacionista ao segundo turno. Nos dois mandatos, Fernando Henrique demonstrou razoável capacidade de recuperação. Mas isso significará forte alocação de recursos na área do PNBinf, o que poderá ser estratégia de alto risco em um contexto de recessão mundial, com repercussões no país.
Há, porém, um aspecto que mexerá de maneira mais sensível com o sistema de percepção do eleitorado. Trata-se da identidade dos candidatos e da simbologia que representam. Veja-se a situação de Lula. A maioria das pesquisas o coloca no segundo turno das eleições de 2002, mesmo sabendo que o eleitor brasileiro é muito influenciado pelas circunstâncias do momento. Mais de 20 anos não foram suficientes para expurgar as protuberâncias na imagem de Lula, apesar dos dados que atestam queda nos índices de rejeição e fortalecimento do conceito do PT em todas as classes sociais. Contra Lula existem discriminações, em função da origem operária, rejeição ao programa, criticado por inconsistência conceitual, e à inexperiência administrativa. E não serão poucos os conservadores que enxergarão na barba e até no tom de voz resquícios de um discurso ''fundamentalista-taleban''. O PT, light ou diet, será forçado a enfrentar a inevitável comparação o mais preparado e experiente contra o mais desqualificado. Esta condição, que é extensão do conceito exposto no início deste artigo (''onde está a força maior, cessa a menor''), será o principal calcanhar-de-aquiles do candidato petista. Mais uma vez, Lula será o principal obstáculo dele mesmo, principalmente se continuar a emitir conceitos considerados impróprios, como a defesa do protecionismo francês à sua agricultura e a tese de que, antes de exportar, é preciso matar a fome do povo.
Significa que, mais uma vez, Lula será derrubado no segundo turno? Não, necessariamente. Estará sendo decisiva, isso sim, a associação que o eleitor fará entre maior e menor, entendendo-se que os dois significados poderão ser transferidos para o campo do mal e do bem, daquilo que será melhor ou menos ruim para os cidadãos. Neste caso, o Produto Nacional Bruto da Infelicidade poderá significar mal maior que a identidade de Lula.


- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular em São Paulo e consultor político
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