PMDB, ainda o mais forte
A despeito do novo estrago sofrido com as eleições municipais, o PMDB ainda é o maior partido brasileiro diante do número de parlamentares federais e estaduais, vereadores e prefeitos que tem. Embora fazendo apenas 16,8% dos votos na recente eleição, com o que aparece em terceiro lugar - o PPB sai em primeiro, por causa de São Paulo, com 7,139 milhões de votos (18,1%), e o PFL em segundo, com 6,774 milhões de votos (17,2%) -, o partido perde, dia a dia, substância com as defecções, das quais a maior é a do PSDB, o que mais cresceu, por força da turbina oficial, com 15,9% do total, ou seja, quase 6,3 milhões de votos.
Sofrendo o drama das ambiguidades para ajustar-se a um cenário pragmático, em que não há espaços para usar a sua doutrina como alternativa à situação atual, esvaziou-se em seu discurso, o que de resto aconteceu com todos, inclusive com o PT, o mais articulado de todos e que está em oitavo com 5,1% dos votos, atrás, vejam bem, do PTB e do PSB, esta uma sigla de arranjos na esquerda de emigrados do lulismo e da social-democracia, como Célio de Castro, prefeito eleito de Belo Horizonte. O PMDB elegeu 1.286 prefeitos no Brasil e, no Paraná, nada menos de 75.
Mas o PMDB oscila, nacionalmente, entre o conforto de ser governo e deter ministérios, com o que fica muito parecido com o PFL, e os ensaios de vôo autônomo e de oposição. Nem o tema, espetacular, da defesa da Vale do Rio Doce, pois a idéia de vendê-la tem tudo de crime lesa pátria, consegue unir as suas facções, embora figuras conservadoras, mas com um histórico de nacionalismo e patrimonialismo, como José Sarney e Itamar Franco, ex-presidentes, pretendam liderá-la.
O caso do Paraná é típico para evidenciar essa perda de vitalidade: seu maior eleitor, cassado agora pelo TRE, Roberto Requião, não consegue irradiar à base o entusiasmo pela causa do seu mandato, e o fato é em si relevante para motivar e liberar potencialidades. Seu presidente, Mário Pereira, está de relações cortadas com Requião, que o agrediu até na intimidade familiar, e se nas eleições ao governo se saiu mal aliado ao alvarismo, agora no pleito municipal tem dificuldades para conter a evasão dos seus 800 vereadores e dos 75 prefeitos em direção ao Palácio Iguaçu.
Se antes da cassação do senador eram favoráveis as circunstâncias para acerto com o governo (ele já existe na presença de Joni Varisco, que se opôs a Requião nas prévias presidenciais, causando estragos consideráveis em favor de Quércia), agora tudo se complicou e qualquer ato nesse sentido terá efeitos desarticuladores.
Se a aproximação com o oficialismo não sair na cúpula, o que é desejado não por todos, mas por muitos prefeitos e vereadores eleitos, ela se dará num quase arrastão e sem qualquer apelo de Lerner. Mesmo com as perdas, ainda só o nome de Requião no partido é capaz de empolgar e, se sair do PMDB, tem alternativas de seus ex-secretários Vitório Sorotiuk, no PSB, e Jorge Miguel Samek, no PT.
BIZARRICE - Numa reunião-jantar de juízes aposentados, o anarquista Elísio Marques propôs (e isso só poderia partir dele) moção de solidariedade ao senador cassado, mas que caiu, segundo o proponente, no vazio de estômagos ansiosos por um picanha rosa. Estava querendo transformar o jantar num clima de banquete de Platão, um exercício epistemológico contra a congestão.
AVALIAÇÃO - Ainda não terminaram as avaliações regionais em torno dos resultados eleitorais. É que além dos casos de Altônia (nova eleição numa seção), o de Arapongas (exame pela Junta se haverá ou não recontagem parcial), mais o de Irati, há extrema dificuldade em tabular, tanto entre aliados como os de oposição, quem está a favor ou contra o governo, se participa ou não da aliança estadual e local.
Mas o governo ganhou a eleição: o PDT fez 36% dos votos (888.079), o PSDB 19% (472.328). O PPB com 13% e o PTB com 10%, bem como o PFL com 7%, têm tudo para ficar exatamente onde estão: com o governo. Se somarmos as adesões que virão, a matemágica de Álvaro Dias e de Hélio Duque vai para o saco.
SPRAY - Ontem o constitucionalista Clémerson Merlin Cleve protocolou no Fórum de Guarapuava apelação ao TJ em defesa dos 12 vereadores cassados, levantando como preliminar a nulidade da sentença. - Houve, além de cerceamento de defesa, a devolução dos recursos liberados pela Câmara com juros e correção. - Cleve acusa o juiz de inexperiente por ser substituto e muito jovem e que não deferiu a produção de provas pericial e testemunhal, não permitindo ainda o acesso dos advogados aos autos. - Agora uma corrente no TJ defende a indicação do desembargador Otto Sponholz para a Corregedoria. - Apesar das vitórias que obteve no Rio Grande do Sul, o PT naquele Estado teve 24% dos votos, um a mais do que o PMDB. Na Região Sul, PMDB e PDT empatam com 23%, 19% do PPB, 12% do PT e 8% do PSDB e 7% do PTB.
FOLCLORE - Atarefadíssimo, ouço o telefone nervoso do diretor comercial do Canal 12 sobre o erro da apresentadora do telejornal que disse semafôro em lugar de semáforo. Preocupado com o próximo noticiário, que iria ao ar em seguida, repliquei: Mas que desáforo. O homem do comercial levou uma hora, depois de vários uísques e canapés que ele sorvia enquanto eu trabalhava, para se ligar no trocadilho. Seu semáforo estava desligado, daí a trombada.
AFORÍSTICO - Luiz Cláudio Romanelli pensa que construiu mais casas do que o joão-de-barro. Enquanto ele sonha, o pássaro age e, se a companheira trai, bloqueia a janela. Mas isso é lenda menos consistente do que as casas que o Roma erigiu.





