Planos de Saúde e razões dos médicos
Na briga entre os médicos e os Planos de Saúde, quem sai prejudicado é o doente. Isto está acontecendo, segundo se ouve da própria comunidade médica. O depoimento do conhecido médico Drauzio Varella, feito um ano atrás mas que ainda ecoa, e cada vez mais alto, revela o drama dos profissionais vinculados ao sistema (97% dos médicos brasileiros), pela baixa remuneração média de R$ 20 por consulta o que ele considera insustentável. Começa por citar levantamento da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas sobre o custo de um consultório médico, cujos gastos mensais são de R$ 750 de aluguel, R$ 150 de condomínio, R$ 650 de salário a atendente, R$ 600 a um auxiliar de enfermagem, R$ 275 à faxineira, R$ 224 ao contador, mais encargos trabalhistas, contas de luz, água, gás, telefone, impostos, taxa municipal, conservação do imóvel e material de consumo, tudo somando R$ 5.179. Diz que para cobrir esse custo será preciso atender a 258 pacientes ao mês, e como cerca da metade deles retorna, o número de atendimentos mensais sobe para 387, ou 18 por dia útil. Mas, se o médico pretende ganhar R$ 5.000 por mês (dos quais serão descontados R$ 1.402 de impostos), precisará atender 36 clientes/dia. Uma consulta, dessa forma, duraria 5 minutos. Nessa velocidade não é possível exercer a profissão com eficácia, e a probabilidade de erros graves aumenta perigosamente quando um quadro clínico é avaliado em 10 ou 15 minutos. É evidente que o bom exercício da medicina exige exame físico cuidadoso, observação acurada, atenção à história da moléstia, descrição dos sintomas e dos fatores de melhora e piora, e uma análise, ainda que sumária, das condições de vida e da personalidade do paciente ele diz. E acrescenta que aos médicos que atendem em troca de tão pouco só resta a alternativa de explicar à população que é tarefa impossível trabalhar nessas condições. Os Planos de Saúde alegam que os avanços tecnológicos encarecem de tal forma a assistência médica que ''fica impossível aumentar a remuneração aos médicos sem repassar o custo para os usuários'', mas os sindicatos e os conselhos de medicina desconfiam seriamente de tal justificativa, porque, ao que afirmam, tais empresas ''não permitem acesso às suas planilhas de custos''. O doutor Varella conhecido nacionalmente pelos aconselhamentos que faz através da televisão e que tem 40 anos de profissão faz séria denúncia ao afirmar que os empresários dos Planos de Saúde conseguem mão-de-obra barata, graças à proliferação de faculdades de medicina, e que ''privilegiam número em detrimento de qualidade''. Afirma que tais médicos, ''por não disporem de tempo a 'perder' com as queixas e o exame físico dos pacientes, pedem exames às vezes desnecessários''. ''Se há tosse, pedem raio-x do tórax; se o resultado veio normal, pedem tomografia'', ironiza, dizendo que ''isto é mais rápido do que considerar as características do quadro, dar explicações detalhadas e observar a evolução, e assim têm boa chance de deixar o paciente com a impressão que está sendo cuidado''. Denuncia mais que a economia dos Planos de Saúde no pagamento das consultas resulta em ''contas astronômicas pagas aos hospitais, onde vão parar os doentes por falta de diagnóstico precoce; aos laboratórios e aos serviços de radiologia, cujas redes se expandem a olhos vistos pelas cidades brasileiras''.





