Plano Colômbia: quem paga os pratos quebrados?
Enquanto o presidente colombiano Andrés Pastrana e a organização guerrilheira FARC acertavam o reinício do diálogo, no dia 1º, o Parlamento Europeu votava, por 474 votos a favor contra 1 e 33 abstenções, uma resolução de oposição ao Plano Colômbia. Ao mesmo tempo, para demonstrar o apoio europeu aos esforços da sociedade colombiana em resolver parte dos graves problemas, uma equipe de especialistas chegava a Bogotá para avaliar projetos de ajuda e a Comissão Européia confirmava sua oferta de aproximadamente US$ 300 milhões para subvencioná-los, enquanto os embaixadores dos 15 países membros da União Européia (UE) acreditados em Bogotá, em bloco, animavam as partes em conflito a reassumir as negociações.
Neste panorama aparentemente contraditório, as perspectivas de uma ambiciosa contribuição européia para a solução da crise colombiana não são muito alvissareiras. Chegou-se ao final de uma etapa que começou com o anúncio do Plano Colômbia pelo presidente Bill Clinton (Cartagena, agosto de 2000) e continuou com a polêmica provocada pelas prioridades militares. A percepção européia oscilou entre as declarações de apoio político, as vagas promessas de contribuir com fundos para projetos socioeconômicos (a todo momento inferiores aos mais de US$ 2 milhões esperados da contribuição internacional sobre um custo total de US$ 7,5 bilhões) e as vozes céticas que prevêem que os europeus farão uma contribuição virtual a um plano de paz virtual.
Pode ser uma oportunidade perdida. Quando a Europa detecta um tema no qual se pode apresentar como alternativa do que se percebe como errônea política dos Estados Unidos, aferra-se a ele com unhas e dentes. Entretanto, três condições são necessárias para garantir um mínimo de êxito. Primeiro, é preciso que o espinhoso tema seja assumível do ponto de vista político e econômico diante dos Estados Unidos. Em segundo lugar, que não cause impacto na medula de uma região sensível da segurança nacional coletiva dos europeus ou de um de seus influentes estados membros. Além disso, deve ser regionalmente limitado para poder concentrar os recursos comuns em alguns projetos identificáveis e controláveis.
No primeiro caso, por exemplo, o enfrentamento com os Estados Unidos está descartado (Kuwait, Kosovo, Panamá). No segundo, não se pode brincar com temas de migração, energia, terrorismo etc. No restante, a Europa tem pleno caminho à frente. A Europa poderia participar da crise colombiana com uma visão diferente da dos Estados Unidos. O Plano Colômbia é candidato idôneo para uma intervenção européia: a crise está, no momento, localizada; não representa, no momento, um tema de segurança estratégica para os Estados Unidos; não causa impacto nos interesses básicos da União Européia (UE) nem de nenhum de seus 15 Estados membros.
A oportunidade de apresentar-se neste caso como uma alternativa aos Estados Unidos é uma tentação tão difícil de resistir quanto, em seu momento, o foi a crise centro-americana dos anos 80, quando a Europa contradisse o diagnóstico do governo de Ronald Reagan: as guerras civis não eram causadas pelo eixo Moscou-Havana, mas sim pelas desigualdades socioeconômicas. Agora, a Europa considera que o narcotráfico não é a causa dos problemas, mas o resultado das falhas estruturais. Quando os detalhes do Plano Colômbia foram expostos com crueza, os europeus reagiram com uma espécie de exercício de ginástica sueca. Primeiro, levaram as mãos à cabeça e, depois, aos bolsos.
O primeiro movimento foi de incredulidade e alarme diante de imagens que lembravam o Vietnã como num túnel do tempo, enquanto os helicópteros e os assessores militares caminhavam por selvas que não se sabia se eram do Sudeste Asiático ou de Putumayo. Depois, baixaram braços e mãos para comprovar se suas carteiras continuavam em seus lugares. Os europeus percebiam que estavam lhes pedindo, como numa campanha de arrecadação benéfica de fundos, que pagassem os pratos quebrados de uma guerra que não haviam iniciado e nem agravado.
Os dirigentes da UE estão encurralados entre a obrigação de dar apoio ao governo colombiano, responder ao entusiasmo de alguns governos e às críticas da maioria dos Estados membros, do Parlamento, de ONGs e da opinião pública. Enquanto isso, desenvolvia-se uma deprimente distribuição de funções. Por um lado, os norte-americanos pareciam que entrariam com as armas, os colombianos com os mortos e os europeus pagariam o custo da reconstrução, uma vez que estivessem esgotados os dois primeiros fatores do drama.
A correção norte-americana ao plano, através da aplicação da doutrina expressa pelo secretário de Estado Colin Powell (não entrar nos cenários onde não está em jogo a segurança nacional essencial dos Estados Unidos e, se entrar, deve-se fazê-lo com uma força notável, garantias de êxito e com mínimas baixas norte-americanas), por um lado. E, por outro, a pressão exercida junto ao governo de Bogotá para que coloque mordaça nos paramilitares e encare os problemas sociais e econômicos (de acordo com a mensagem que o presidente colombiano Andrés Pastrana recebeu em Paris e Estocolmo) podem, entretanto, tornar mais factível a participação européia. É o que todas as partes em litígio consideram imprescindível, seja no plano político quanto no econômico. A esperança é a última que morre.
- JOAQUÍN ROY é catedrático de Relações Internacionais e pesquisador do Centro Norte-Sul da Universidade de Miami (IPS)
[email protected]





