Planejar no Brasil não é fácil
Continua difícil, para os estudantes e praticantes de administração, encontrar livros texto que sejam adequados à nossa realidade. Isso, naturalmente, porque a grande maioria ainda é escrita lá fora sobretudo nos EUA e muitos, embora assinados por autores nacionais, são muito mais trabalho de copy and paste (o equivalente, nos processadores de texto, do antigo tesoura e cola) do que de experiência e criação.
Tome-se, por exemplo, a importante questão do planejamento estratégico. Tirando as obras clássicas de Sun-Tzu, von Klausewitz e Lidell Hart que, a rigor, tratam de como administrar guerras os manuais disponíveis, embora cheios de boas e sensatas receitas sobre o que se encontra no começo, no meio e no fim dos planos estratégicos, raramente ou nunca lidam com a complexa realidade das diferenças culturais entre nós e eles.
Para ilustrar, recorro a três anedotas no sentido estrito de relatos sucintos de fatos jocosos ou curiosos (Aurélio). Primeira: quando o marido descobriu que a mulher o traía com seu melhor amigo, no sofá da sala, tomou providências imediatas: vendeu o sofá. Segunda: pela enésima vez, ao tentar pagar a corrida (substancial) de táxi com uma nota de R$ 50, o motorista não tem troco. Faço um cheque. Na banca de jornais, gasto R$ 35; ao dar a nota de R$ 50 a mocinha pergunta: O senhor não tem R$ 5? Terceira: desço do meu quarto de hotel, em São Paulo, para o café da manhã, e percebo, na porta do elevador, o aviso feito obrigatório pela prefeitura paulista: Antes de entrar, verifique se o elevador está, de fato, onde deveria estar. Sei que o texto não é exatamente este; mas o sentido é.
Como se sabe, as anedotas ilustram com precisão o espírito de um povo. E o humor é o disfarce mais ou menos confortável da aceitação das próprias neuroses. No caso presente, a primeira, embora absurda, não passa da transposição ao erótico cotidiano de uma nossa notória dificuldade, já denunciada por ninguém menos do que Eça de Queiroz: a de relacionar causa e efeito. A questão do troco presta-se a pesquisas de espectro amplo. O fenômeno é observado em todos os países latino-americanos, não sei se também na África. Mas não ocorre nos países desenvolvidos da América do Norte ou da Europa.
Pode ser atribuído à generalizada falta de dinheiro. Mas prefiro acreditar que se trata de uma outra nossa dificuldade congênita: a de visualizar, ao mesmo tempo, a parte e o todo. O motorista não é simplesmente alguém que conduz um veículo de transporte, mas o administrador de um pequeno negócio, que implica em diversas ações de planejamento, inclusive a de providenciar troco, para não perder tempo, seu e do passageiro.
Finalmente, o quase ridículo aviso dos hotéis paulistas serve para reforçar o argumento da nossa dificuldade de relacionar causa com efeito, mas também e principalmente demonstra nossa fé inabalável na palavra escrita e na sua pretensa capacidade de resolver problemas. Desde os nossos ancestrais romanos e portugueses que acreditamos que a instituição de uma nova lei será capaz de resolver problemas antigos. Nisso, quebramos a cara o tempo todo... e, mesmo assim, não aprendemos.
Agora sim, estaríamos prontos para tratar de planejamento estratégico no Brasil, um país onde as pessoas, em geral, não conseguem relacionar causa com efeito, têm dificuldade para ver as coisas no seu conjunto e acreditam demasiadamente nos códigos e na palavra escrita.
Seria quase desnecessário explicar o primeiro item, não fossemos ambos, o leitor e eu, brasileiros. É que, na prática, muitos planos estratégicos produzidos aqui não guardam a mesma relação harmônica entre as partes como os que vêm de fora... A falta de visão gestáltica (o modo de ser de cada elemento depende da estrutura do conjunto e das leis que o regem, não podendo nenhum dos elementos preexistir ao conjunto novamente o meu Aurélio eletrônico) fará com que, de modo inevitável, durante a fase de planejamento serão esquecidos itens importantes, às vezes, vitais.
Hélio Silveira da Motta, meu mestre na arte do planejamento, costumava dizer: O importante não é o plano, mas sim o ato de planejar. Se você for capaz de fazer um bom plano, rasgue-o e concentre-se na implementação. Entre nós, dá-se o contrário: são muitos os casos em especial na administração pública em que o plano esgota-se em si mesmo e as ações necessárias para transformá-lo em realidade são simplesmente relegadas ao limbo, como coisas desinteressantes e até inúteis.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é jornalista, publicitário, professor e dirigente de instituição universitária no Rio de Janeiro





