Rio de Janeiro- A empregada doméstica Sirley Carvalho Pinto, 32 anos, tem a bolsa roubada e é espancada por cinco jovens moradores de condomínios de alto padrão. Os golpes poderiam ter levado Sirley à morte. Difícil de engolir? Pior ainda, a explicação: detidos, três dos cinco autores justificaram que confundiram Sirley com uma prostituta. O caso, mais um para o show de horrores promovido pelos pitboys - que têm dinheiro, acesso à educação e a todas as regalias que a sociedade capitalista pode oferecer - reacende uma série de discussões: os pais são culpados? Qual a solução? A psicóloga Gislene Isquierdo defende uma postura mais participativa da família.

Tivemos o caso do índio Galdino, em 1997. Agora, a agressão à doméstica Sirley. Uma década depois, os pitboys continuam em ação. Por quê?
Todo ser humano nasce bom, com potencial para ser psicologicamente e emocionalmente saudável. Agora, se ele vai ser ou não, depende da educação que ele tem, dos reflexos que recebe ao longo da vida, da presença dos pais. Exemplifico: aquele que mostra a língua aos 3 anos de idade, se não corrigido, vai mostrar o dedo, fazendo um gesto obsceno, na adolescência. No caso dos autores dessas e de outras agressões, creio que eles não foram amados em sua essência e, certa vez, tentaram agradar a todos. Não deu certo, uma vez que encontraram um ambiente de pessimismo em casa, entre a vizinhança e ao seu redor. Resultado: se ''acharam'' em um grupo que os aceitasse.

Daí a proliferação desses grupos?
Com certeza. Somos educados a ver o lado negativo. Se a criança tira notas baixas, ela é tida como ''burra''. Se a criança faz bagunça, ''só atrapalha''. Se deixa de amarrar o cadarço, o ato falho é lembrado. E, se diante de tantas cobranças não corresponde às expectativas, certamente ''não vai dar certo''. Diante de tantos rótulos, em que ou se é nerd ou se é patricinha ou se é violento, essa criança ou jovem busca aqueles com os quais se identifica.

Os culpados são os pais?
São os responsáveis. Culpados não diria. No caso das classes mais abastadas, a exemplo dos pitboys do Rio, o que constato são os pais, uma vez incrédulos quanto ao futuro dos filhos, entregando a responsabilidade para a escola, empregadas, psicólogos. Não funciona assim.

Certo, então no caso dos pitboys, quando se diz que ''faltou chinelo'' na infância, a senhora concorda?
Não faltou chinelo, faltou respeito. Está mais que comprovado que a terapia do chinelo e da vara não funciona. Liberdade excessiva, como vemos nos dias atuais, também não. Muitas vezes as palavras ditas pelos pais desses jovens, na infância, serviram de estopim para o desenrolar de suas respectivas personalidades. A família precisa assumir seu papel.

Se não se pode bater e nem liberar demais, qual é o modelo?
Sou favorável ao meio termo, a uma ''salada''. Nas décadas passadas, em que um olhar fuzilava e as chineladas eram constantes, vimos que a punição física só tinha efetividade na presença do autor. Após a Revolução Sexual, os pais quiseram ser amigos, e aí partiram para o outro extremo, regido pela lógica do ''não vou ser o pai que o meu pai foi''. É preciso separar a criança do comportamento, o pecado do pecador. Nesse sentido, minhas dicas são transformar o sermão em conversa, aprendendo a ouvir; ser empático, tentando se colocar no lugar da criança ou do jovem. Não se pode, ressalto aqui, transformar as relações cotidianas em mera assembléia, até porque uma hierarquia se faz necessária. Há certas coisas - e regras - que não têm porque serem discutidas.

Por fim, a pergunta que ecoa: esses rapazes ''têm conserto''?
Prefiro a prevenção ao tratamento. Contudo, para se mudar, é preciso querer. Partindo dessa vontade e tendo uma base sólida, em que se aprenda a lidar com o fracasso, a perder, que não se está acima do bem e do mal e que não se é perfeito, acredito que sim.

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