Pipoca com propaganda política - José Fernando da Silva
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de setembro de 1998
José Fernando da Silva 
Por dever de ofício, assisto aos programas eleitorais. E por dever do estômago, como pipoca durante o desfile das barbaridades políticas na TV - é perigoso ver tais programas de barriga vazia. Mastigo a pipoca como se mastigasse isopor. Ela foi feita no microondas, toda certinha, sem queimar, sem milhos não estourados, e profundamente sem gosto. Os programas eleitorais também foram produzidos no microondas da propaganda - este monstro disforme que tomou conta do nosso século e produziu absurdos como Hitler, com seu nazismo anti-humanidade.
Com suas fórmulas vencidas, os programas eleitorais estão lá, certinhos, dando o recado que o senso comum aceita, quadradinhos, e profundamente insossos.
Duvido da eficácia dos programas eleitorais. Como qualquer peça de propaganda, eles se esgotam quando não renovados. Há pelo menos cinco eleições a mesmice se faz na telinha. Os candidatos são praticamente os mesmos, idem para os clichês, ibidem para a mediocridade. A pergunta é: como escolher um governante se todos são vendidos como sabonetes? Marcas diferentes, porquanto produzidos pela mesma fábrica dos que sobrevivem explorando a ignorância pública.
Talvez por um defeito da alma lusitana, o brasileiro guarda em si uma pitadinha de masoquismo. Ele pode suportar tardes e noites assistindo ao Gugu, Sílvio Santos ou ao Ratinho, mas tem lá seus limites: virou unanimidade nacional crer que assistir ao programa eleitoral exige do sujeito bem mais do que o simples masoquismo. O cara tem que ser meio, ou bastante, louco.
Não posso concordar com quem incentiva o povo a não assistir à propaganda política, é o que temos ainda para orientar nossa cidadania. Mas é urgente encontrarmos uma outra fórmula que nos esclareça de como deve ser nosso voto. Pelo modelo que está aí, só há um beneficiado, o político safado, que não depende da difusão de suas idéias - em verdade, ele nunca as têm. Pilantra, este sujeito sabe que a eleição se decide na troca de favores, na distribuição de dentaduras, comida e cadeiras de roda.
Platão - que definitivamente não é aumentativo de prato - formulou o problema básico de Filosofia Política que nada mais é do que criar um método de impedir que a incompetência e a velhacaria ocupem um cargo público e de selecionar e preparar os melhores para governarem pelo bem comum. Ou seja, quatro séculos antes de Cristo, o povão já sofria com a safadeza política e pelo que se sabe deve sofrer ainda muito, posto que o nosso referencial continua sendo a propaganda e a má propaganda. Entre outros, Spinoza, no século XVII, retoma o problema e escreve que o defeito da democracia é sua tendência de colocar a mediocridade no poder.
Os dados do Ibope são nada animadores e pelo jeito vamos continuar com uma boa carga de mediocridades comandando nossas vidas. As mudanças na programação motivadas pelo horário eleitoral gratuito provocaram queda nos índices de audiência das emissoras. Graças à segunda exibição do horário político, das 20h30 às 21h20, caíram os índices de audiência das três emissoras que disputam pontos no horário nobre. Na primeira semana da propaganda eleitoral, o SBT registrou média de 6 pontos no Ibope, a Globo, 28, e a Record, 4. Nas semanas anteriores, as médias eram 14, 43 e 9 pontos, respectivamente.
As emissoras amargam grandes prejuízos com o horário eleitoral. Além do comerciante que vende pipoca, o brasileiro ganha ao poupar seu cérebro da anestesia neuronial da novela das 8. Entretanto, perde o País por não conseguir oferecer ao seu povo a chance de realmente conhecer quem deseja governá-los.
- JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha em Londrina


