Pinto no lixo - José Nêumanne
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segunda-feira, 20 de outubro de 1997
José Nêumanne 
A cena de Bill Clinton batendo pênalti na Man
gueira e a bola passando pelo goleiro Reinaldo Alves de Paiva, o Bartolo, de 17 anos, do São Cristóvão, traz à memória uma partida de basquetebol da qual o maior inimigo dos Estados Unidos, Fidel Castro, foi o cestinha. Esta não foi transmitida ao vivo pela televisão, mas é possível de ser imaginada, com toda a carga de significado que contém, graças ao magnífico texto que descreveu Jorge Semprún em seu Autobiografia de Frederico Sanchez. O patriarca das guerrilhas, lento pesado, inábil, chegava ao garrafão do adversário e arremessava sem nenhuma dificuldade, repetindo até acertar. É difícil achar síntese mais perfeita do culto à personalidade.
Na verdade, Bartolo não é goleiro, mas meia-direita, e, mesmo assim, ninguém é obrigado a aceitar como absoluta expressão da verdade sua afirmação posterior, segundo a qual não facilitou a entrada da bola, mas foi o presidente norte-americano quem bateu o pênalti muito bem. A emoção do momento pode ter retardado seus reflexos. Aliás, considerando-se a inabilidade do homem mais poderoso do mundo com a bola no pé, já é muito o chute ter o destino correto das redes e não atingido algum dos espectadores, embasbacados com a cena. Afinal, nada disso tem a menor importância. Relevante mesmo é ter Clinton chutado, com mais habilidade do que o pênalti, a arrogância imperialista norte-americana.
Ao contrário, pois, das cestas de Fidel, o gol de pênalti de Clinton não representa a submissão da vontade à força, mas a sedução da força pela vontade. O presidente da maior potência econômica, política e militar do planeta globalizado saiu de casa para uma aborrecida viagem de negócios com mercados potenciais para os bens e serviços produzidos por cidadãos que governa. Seus subordinados lhe relataram as potencialidades de um deles, o nosso, alertando para problemas endêmicos da corrupção, falhas do sistema educacional e a insegurança reinante. Era tudo verdadeiro, como convém num documento preparado por algum técnico, treinado para vender, mas inábil para entender.
Faltava, porém, algo que o presidente deixou de conhecer na juventude pelas deficiências das versões inglesas das letras do maestro Tom Jobim e de seus parceiros, que disse ouvir com frequência e agrado: a magia do povo brasileiro, grande demais para caber em relatórios diplomáticos e só possível de ser contida na poesia e captada pela sensação da pele em contato com o sol ardente do verão carioca, que resolveu se antecipar para recepcionar, em pleno outono, o ilustre hóspede.
Os empresários brasileiros se entusiasmaram com a adesão do império ianque ao Mercosul e os políticos ouviram com agrado o pedido de desculpas pelas gafes de um corpo diplomático mais habituado a mandar do que a escutar. Mas, de fato, o Brasil real, que Clinton soube ver, ouvir e entender, foi o transmitido pelo carinho espontâneo dos meninos da Mangueira. A estes meninos o presidente norte-americano, feliz que nem pinto no lixo, como resumiu, com sua voz poderosa, o puxador de sambas Jamelão, se associou numa frase que não deve ser esquecida: De hoje em diante, eu sou Mangueira, disse Clinton, entrando no cordão.
Ao aderir à galera verde e rosa, ele imitou o visitante anterior, o papa João Paulo II. Se Deus é brasileiro, o papa é carioca, disse Karol Woytila, deixando de ser o polonês mais famoso do século para se deixar levar pelo charme irresistível de uma gente que ouve essas frases com naturalidade, até por nunca ter conhecido o sentimento venenoso da xenofobia. Clinton é Mangueira e o papa, carioca, porque o povo brasileiro recebe os que vêm de fora com desvelos de amizade de infância. Produto de um caldeirão de raças e credos religiosos, falando uma língua só e ocupando um território indivisível, a gente do Brasil, como os meninos da Mangueira, tem a generosidade dos que não têm complexo de inferioridade de nenhum tipo, até porque reconhece que não é melhor do que ninguém, como tantas letras de samba cantaram.
No planeta globalizado, onde a competição é feroz, o charme brasileiro, que virou a cabeça do Sumo Pontífice e moveu o pé do estadista da Pax Americana, é produto que não se vende, mas do qual não se abre mão. Pois esse poder de seduzir é um passaporte para a felicidade.


