PINTANDO O SETE - Arte deve voltar a ser ensinada na escola
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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 
Anos atrás, toda moça ''prendada'' deveria saber - além dos afazeres domésticos - bordar, cantar, tocar piano ou outro instrumento musical. Com o tempo, isso foi se tornando mais raro. Hoje, para aprender essas artes, é preciso recorrer a professores particulares. Ao mesmo tempo, o ensino de habilidades artísticas foram sumindo do currículo escolar.
Até 1972, música, teatro e artes plásticas faziam parte das disciplinas obrigatórias. No entanto, foram substituídas pela Educação Artística o que, segundo os críticos, ''acabou com o ensino da arte'', já que muitos professores designados para ministrar a disciplina não tinham formação específica em nenhum tipo de arte.
Em 18 de agosto de 2008, o presidente Lula sancionou a Lei 11.769, que determina a volta do ensino de música para os alunos dos ensinos fundamental e médio. O prazo para adaptação das escolas é de três anos. Magali Kleber é professora de música na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e considera a arte um instrumento poderoso na educação.
''A escola forma as crianças e é nelas que temos que investir. Não queremos a arte oferecida só por alguns projetos, que amanhã podem acabar, ou algumas atividades que acontecem esporadicamente. Nós queremos arte no sistema educacional, que é como vamos garantir o acesso a todo brasileiro. O assunto é novo, requer investimento, vontade política e a união da área'', sentencia ela.
Como a senhora avalia a educação da arte hoje?
Podemos pensar a educação da arte em várias dimensões, não podemos homogeneizar e falar ''é assim''. Existe um movimento no Ministério da Cultura que tem lados positivos e negativos. Por exemplo, a valorização da cultura popular é evidente. Valorizar a cultura popular traz para a discussão outras manifestações artísticas que antes ficavam meio na periferia. Isso é interessante porque começamos a conhecer o Brasil em sua diversidade, que é uma das nossas riquezas.
Do ponto de vista educacional, das políticas públicas da educação, acho que a arte ainda não tem o seu lugar. Acho que ainda falta uma valorização da educação. Música, teatro, dança e artes visuais são especificidades que merecem uma formação. Nesse sentido acho que ainda temos que lutar muito. Logicamente é necessária uma estrutura e sabemos que o governo tem outras prioridades, mas, de qualquer forma, se for assim, nunca teremos nosso espaço.
A escola pública vai ter condições de fazer essa separação das disciplinas?
Isso deve ser uma coisa construída. Atualmente, não. Conceitualmente o Brasil está muito bem, mas sinto que essa produção de conhecimento das pesquisas em educação dialoga pouco com a prática, que seria o Ministério da Cultura e as secretarias de Educação, tanto municipais quanto estaduais. Acho também que falta uma melhor comunicação entre a universidade e o ensino básico. É importante que a arte seja incorporada ao currículo e é importante que ela seja incorporada de uma forma que tenha as condições necessárias - de pessoal formado e de espaço.
Hoje existe um conceito de escola cidadã, que propicia o trânsito da periferia para o cinema, o teatro. A periferia às vezes não tem acesso ou não vai porque não está acostumada, nem conhece. Gratuidade por si só não é garantia de acesso. A escola pode estar promovendo esse trânsito. Cada vez que se tira um grupo de alunos da escola é necessária uma estrutura, mas é muito lucrativo do ponto de vista educacional porque o trânsito mostra outras situações, outras vivências, dá possibilidade de outros tipos de alegria para a criança.
E os projetos sociais, realmente ensinam arte?
Há muitos bons projetos e há ruins também. Os bons a gente percebe que atendem um número reduzido (de crianças e adolescentes), não é como a escola. Projetos sociais podem nos dar dicas de quais coisas interessantes estão sendo produzidas até em termos de pedagogia. Esses projetos sociais se ajudam entre si, têm uma comunicação muito rápida. Isso dá condição deles verem um problema que aconteceu em um lugar e aplicar a solução em outro.
Poderíamos dizer que os projetos são mais empenhados para ter resultados, já que têm como objetivo dar outra oportunidade a crianças e adolescentes?
O educador hoje também passa por dificuldades. Eu valorizo muito o profissional de educação, porque não é fácil o dia a dia de uma escola. Para ficar ali tem que ter comprometimento. No projeto social as amarras são menores e o atendimento de demandas mais imediato. O conteúdo é importante, mas, no momento que a criança chega com fome ou com problema familiar, ele é posto em primeiro lugar.
As autoridades não dão valor à arte e talvez por isso falte investimento?
Eu não diria tanto, porque quando fui para o Senado defender a volta da música na escola era unânime o reconhecimento da importância da música. Mas eu acho que ainda existe dentro do sistema educacional brasileiro uma valorização daqueles conteúdos já tradicionalmente instituídos. Eles são importantes, não nego, mas é preciso pensar em outras formas de organização do conhecimento.
Há colégios que focam muito no vestibular, correto?
No vestibular, no conteúdo, em avaliações que valorizam apenas um aspecto. Por exemplo, quem tem tendência para ser músico hoje, não tem isso valorizado dentro do ensino médio. Onde ele é avaliado nisso, sendo que quem vai fazer a carreira de músico deve enfrentar um vestibular onde tem que apresentar uma certa proficiência? Ele tem que fazer tudo isso por fora, porque no ensino médio não existe essa avaliação nem essa possibilidade. É um foco muito fechado, o ser humano não é só as disciplinas que aí estão. Isso tinha que ser revisto pelo Ministério da Educação. E tem outra coisa, os ministérios da Educação e da Cultura andam em paralelo, têm pouca comunicação, quando poderia haver uma melhor otimização entre os dois.
Como os pais podem ajudar a despertar nas crianças o gosto pela arte?
Dentro das cidades que têm essa possibilidade, levar em espetáculos. Dar oportunidade de ir ao teatro, de ver bons programas na televisão, DVDs, mesmo sites que não são propriamente educativos, mas mostram culturas, novos tipos de conhecimento. Em Londrina tem o Festival de Música, Festival de Teatro, sempre tem espetáculos voltados ao público infantil. Mas acho que a escola ainda é o ponto, porque toda criança vai para a escola.


