PINGO NO OCEANO Desafio da economia solidária é atingir 80% da população produtiva
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sábado, 24 de setembro de 2011
Marian Trigueiros <br> <br> Reportagem Local 
Auxiliar a população excluída no enfrentamento à pobreza, por meio do trabalho coletivo para produção e comercialização de bens e serviços através da autogestão, ou seja, sem patrão. Este é o objetivo da Economia Solidária (ES), que ganhou visibilidade nos últimos anos por conta do apoio do governo federal e de grande parte dos Executivos estaduais. O reflexo imediato disso é a criação de inúmeras cooperativas país afora, que são consideradas exemplos de inclusão produtiva.
O impulso ao setor também pode ser atribuído à organização promovida pelo governo federal. Uma das principais iniciativas foi a criação, em junho de 2003, da Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes), vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego. O próximo passo é a aprovação do projeto de lei que prevê a criação do Fundo da Economia Solidária. O documento, já discutido em Conferências Nacionais do movimento, deve ser encaminhado pelo Ministério do Trabalho à Casa Civil em breve.
O economista Paul Singer é um dos idealizadores da ES no País. Para ele, o momento atual é de otimismo. ''A economia solidária está no auge no Brasil. Nunca tivemos tanto apoio'', avalia Singer, que participou do seminário ''A Sustentabilidade da Economia Solidária'', encerrado na sexta-feira na Universidade Estadual de Londrina (UEL).
E Singer trata do assunto com conhecimento de causa. Desde 1996, ele se dedica a incentivar iniciativas voltadas à ES. Apesar de entusiasta da modalidade, ele acredita que essa não pode ser a única opção de geração de renda no cenário econômico atual. ''Não há democracia sem competição. Queremos conviver com o capitalismo, mas com este bem menos massacrador'', aponta.
É possível, hoje, fazer uma avaliação do que foi proposto no início do que conhecemos por Economia Solidária? A realidade hoje é diferente do que foi idealizado?
Para responder, eu teria que recuperar um pouco da memória e não só dos últimos oito anos. A Economia Solidária surge no Brasil, pelo que sabemos, nos anos 1980. Deve ter havido coisas antes, mas não conseguimos documentar. Com a primeira década perdida e, durante uns 20 anos, a ES se desenvolveu inteiramente de forma desconhecida da opinião pública e até mesmo da opinião científica das universidades. Ninguém sabia o que estava acontecendo.
Já nos anos 90, por causa das enormes crises econômicas, da superinflação e do desemprego em massa, começamos, definitivamente, a trabalhar a ES. No meu caso, em 1998, criamos uma incubadora de cooperativas populares em São Paulo, onde eu era professor. Então passei a ser um militante. Desde então estamos sendo surpreendidos pela ES. E em geral de forma positiva. A ES é uma proposta de uma outra sociedade, com outros valores - que não são novos. Acontece que a ES evoluiu e está evoluindo rapidamente no Brasil. E uma vez estando no governo federal, tendo condições de distribuir recursos monetários, políticos e culturais pelo país inteiro, as boas notícias e as surpresas são cada vez mais interessantes e em maior quantidade.
O senhor diz que não existe democracia sem competição quando se referiu à relação entre capitalismo e ES. Diante dessa afirmação, daqui para frente, quais os principais desafios da ES?
Eu acho que a ES tem o grande desafio de ser algo do qual a maior parte da população possa se beneficiar. Por enquanto, ela é um ''pinguinho'' dentro desse grande Brasil. Acreditamos que, talvez, cerca de 3 milhões de pessoas estejam hoje na ES - para uma população economicamente ativa de mais 100 milhões e uma população total de 200 milhões de habitantes - de modo que não passa de 3% do total. O desafio talvez seja crescer de 3% para 80%. O potencial ninguém conhece. Mas isso deve levar um tempo.
No que a criação do Fundo da Economia Solidária pode auxiliar nessa evolução?
O Fundo, que foi proposto e aprovado em duas Conferências Nacionais de ES, decorre da grande dificuldade que os empreendimentos de ES têm em obter crédito. No sistema convencional, que é o bancário, nossas cooperativas praticamente não são atendidas porque não podem oferecer garantias reais, já que não têm propriedades. O que eu aprendi nesses anos é que os bancos realmente só emprestam a quem precisa pouco, para quem já tem.
O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), por exemplo, quando vai estudar se vai emprestar para uma empresa, leva em consideração a fortuna dos donos da empresa. Mas não há donos de empresa na ES e, se houvesse, não teriam fortunas. Esse já é um obstáculo grande. Então, o sonho da economia solidária é ter uma fonte de crédito para poder ampliar suas atividades e avançar.
Índices apontam para o aumento de empregos formais e do poder aquisitivo do brasileiro. Inclusive existe a nova classe média, oriunda das classes mais pobres, que privilegia o consumo. Como o senhor vê isso, quando a economia solidária prega o contrário, de ajuda mútua e crescimento coletivo? A geração formal de empregos seria um entrave à ES?
Não, de jeito nenhum. Nós somos parceiros dos assalariados e conforme melhor para eles, melhor para nós. Eles não são nossos concorrentes, muito menos adversários. Do mesmo modo que a gente festeja o aumento do salário mínimo, festejamos o do emprego formal.
Não sei se é verdade que a nova classe média está toda ela voltada ao consumo. Essa é uma abordagem do ponto de vista daqueles que querem o mercado da classe média. É claro que as pessoas muito pobres, carentes de muitas coisas, uma vez que têm mais dinheiro, vão comprar coisas que não podiam comprar antes. Seria um enigma se não o fizessem. Agora eles querem comer qualitativamente, vestir coisas que estão na moda etc. Ou seja, não querem mais se privar do que a pobreza os obrigou a abrir mão.
A Economia Solidária, por sua vez, prega o que chamamos de consumo consciente e responsável. Mas acredito que o que a classe média está fazendo não é um consumo que eu criticasse.


