Numa coisa, a sociedade brasileira tem sido pródiga até demais: na produção de panacéias. À falta de instituições sólidas e impessoais, não faltam em nossa História personalidades fortes que se destacam justamente pela capacidade de convencer a sociedade de que dispõem de fórmulas milagrosas capazes de resolver todos os problemas. Getúlio Vargas foi o pai dos pobres. Jânio Quadros, o gari que veio varrer a corrupção reinante. Fernando Collor de Mello, o defensor dos descamisados, um Perón alagoano com pinta de galã.
Evidentemente, panacéia - um remédio universal para todas as doenças - não existe. No caso do Brasil, somos obrigados a engolir a pílula dourada e, depois, esconder o frasco fajuto, mas sempre com belos rótulos. Já tivemos um ‘‘Bom Burguês’’ servindo à revolução socialista, et pour cause antiburguesa. Agora, temos o ‘‘bom banqueiro’’, que põe, em nome do Barão de Coubertin, o patrono do espírito esportivo, seu tempo precioso a serviço da redução dos abismos sociais, que têm desgraçado o Brasil, e particularmente a antigamente maravilhosa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Pois sim. O dublê de financista e político tucano Ronaldo Cézar Coelho, depois de ver naufragarem suas ambições de ascender à Prefeitura do Rio, está prometendo publicamente colar as rachaduras sociais, que isolam a pobreza exibida da riqueza exibicionista na cidade que Estácio de Sá fundou e o crime organizado está afundando. Suas boas intenções já foram contestadas pelo mais recente associado, ‘‘São Betinho, o cidadão dos cidadãos’’. Mas os dois fizeram as pazes em nome do interesse maior da utopia que ambos carregam como uma bandeira pelas páginas dos jornais cariocas: a candidatura do Rio a sediar a Olímpiada de 2004. De braços dados, o equilibrista e o equilibrista. Bêbado é o bobo que se dispuser a pagar a conta.
O motivo do arrufo do cidadão-símbolo com o banqueiro bem-intencionado foi a ‘‘Agenda Social’’ do Rio 2004. Betinho quer um compromisso dos organizadores do evento de que eles providenciarão escolas para todas as crianças e adolescentes da área metropolitana banhada pelas águas belas e podres da Baía da Guanabara. E mais: a promessa de que o povo na rua ganhará teto e a camaradagem do esporte será transformada, ao toque de uma varinha de condão, em cidadania. Seria magnífico, se não fosse ridículo.
Convém, antes, esclarecer que a Olímpiada é apenas, e tão somente, um negócio, um enorme negócio, que hoje faz parte da indústria mais promissora do novo planeta globalizado, a da comunicação de massas. O Rio de Janeiro conta com boas possibilidades de sediá-lo, pois é a cidade mais linda do mundo e oferece um exotismo tropical que o pessoal que vem do frio adora. No entanto, não lhe faltam, também, desvantagens: balas perdidas não discriminam atletas e o carioca não é reconhecido como o campeão mundial em matéria de organização e métodos. Até porque a bela paisagem, moldura inspiradora, favorece mais a transpiração na praia do que no escritório.
De qualquer maneira, o esforço para levar o evento para o Rio é benemérito, porque serão criados empregos (114 mil, segundo ‘‘São Betinho’’) e papeluchos verdes impressos pela Casa da Moeda americana circularão num volume suficiente para chutar a crise para o alto. Olímpidada pode não ser um negócio mais lucrativo do que tráfico de cocaína, mas certamente é menos arriscado. Isso até o pessoal do Comando Vermelho é capaz de entender.
Então, encerrada a temporada de bajulação explícita dos membros do Comitê Olímpico Internacional (COI), que visitaram o Rio para avaliar suas condições de sediar o grande espetáculo esportivo, convém esclarecer, definitivamente, que a verdadeira Agenda Social da Olímpiada é composta pelos empregos que vai criar e pela dinheirama fácil, que fará circular.
Infelizmente, empregos e capitais, mesmo gerados em bom volume, não bastarão para construir escolas e casas para todos os pobres da cidade, até porque a riqueza atrairá outros pobres de outras cidades, que acorrerão para lá exercendo o direito constitucional de ir e vir. Então, a tal ‘‘Agenda Social’’ do ‘‘bom banqueiro’’ e do ‘‘cidadão dos cidadãos’’ é tolice. Não passa de pílula dourada de discurso politicamente correto para tentar vestir o negócio puro e simples com o manto diáfano da utopia.
Nenhum dos membros do COI se deixou enganar por essa tentativa de engarrafar panacéia. Seu julgamento deverá ser frio e chuvoso, como a meteorologia de seus dias de visita. É útil, também, que a socieade brasileira tome conta do bolso com muito zelo, pois esse tipo de conversa pra boi dormir termina sempre custando caro para todos e produzindo muito para poucos. Até porque, historicamente, essas pílulas douradas, além de não curarem todos os nossos males, ainda costumam acrescentar mais alguns ao nosso acervo.
- JOSÉ NÊUMANNE é jornalista, escritor e editorialista do ‘‘Jornal da Tarde’’.

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