PIB negativo
PUBLICAÇÃO
domingo, 29 de fevereiro de 2004
Nivaldo Cordeiro 
Lamento constatar que as minhas piores previsões em matéria de crescimento do PIB foram confirmadas pelas estatísticas, e digo isso infeliz. Gostaria de ter errado. Fiz as previsões sombrias, que acabaram sendo confirmadas pelos fatos.
Mas o tema que quero abordar hoje é outro, é sobre a gênese do nosso empobrecimento enquanto Nação. Os jornais estão fartos de análises sobre o mau desempenho econômico, atribuindo à política monetária em vigor a origem de todas as nossas desgraças econômicas. Esse lugar-comum do pensamento nacional é de uma estultice a toda prova.
A explicação para a queda do PIB é mais prosaica e pouco tem a ver com modelos piores ou melhores postos em prática pelo Banco Central. Ao contrário, credito ao Banco Central o mérito de, apesar de tudo, ter conseguido até agora obter uma relativa estabilidade no nível de preços e na taxa de câmbio. Nem quero imaginar o cenário alternativo de frouxidão na política monetária, pois a essa altura estaríamos no pior dos mundos, com o PIB em queda convivendo com a desordem hiperinflacionária.
Todo mundo concorda que o PIB caiu porque o consumo das famílias e os investimentos caíram. E porque essas grandezas apresentaram esse comportamento? Não é a taxa de juros que explica isso, até porque há muitos anos os agentes econômicos nacionais aprenderam a não depender do sistema bancário para sobreviverem.
O segredo de polichinelo da origem das nossas desgraças está em dois vetores. O principal é não apenas a enorme carga tributária que se paga por aqui, mas sobretudo o movimento ascendente que essa carga tributária conheceu nos últimos anos. O governo está matando a economia nacional por asfixia tributária.
O segundo vetor que está deprimindo o consumo das famílias e os investimentos é o poder que alguns monopólios têm sobre a matriz de custos, especialmente aqueles que produzem bens básicos. Todo mês eu olho a minha própria conta de luz, telefone e água, o que pago de combustível no posto mais próximo, o que me leva de dinheiro o entregador de gás de cozinha. Há muito tempo esses bens têm crescido bem acima da inflação e, claro, bem acima da renda média dos brasileiros. Esse jogo nefando tem data para acabar e ela está se aproximando.
Para 2004 espero desempenho tão medíocre quanto do PIB. Só há uma maneira de a economia entrar na rota da prosperidade: é reduzindo o Estado, é reduzindo os impostos. O resto é conversa para boi dormir, é justificativa a priori daqueles que vêm no Estado uma espécie de deus substituto nesse mundo.
NIVALDO CORDEIRO é economista e mestre em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP)
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