Piadas de telefonista
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 07 de janeiro de 1997
José Nêumanne 
Durante as festas de fim de ano, foi uma tortura. Quem tentou falar com alguma cidade do exterior, coitado, nada conseguiu, pois os telefones estavam permanentemente ocupados na noite da véspera de Natal, ao longo do dia do aniversário do Menino Jesus e também nas horas anteriores e posteriores à passagem do Ano Novo. A maioria das tentativas de interurbanos também foi infrutífera, terminando quase sempre com aquele irritante aviso anônimo dado por uma voz feminina, ao mesmo tempo cruel e carinhosa, de que os circuitos estavam congestionados e, portanto, era melhor ligar daí a meia hora.
Esse pessoal de telefonia parece meio chegado a um humor involuntário. Pois, evidentemente, se alguém resolvesse seguir esse conselho de telefonista daria com os burros nágua: esperaria meia hora, faria a chamada e se depararia com a mesma voz, dando o mesmo aviso. Não diria indefinidamente, porque, definitivamente, seria um exagero de minha parte. Mas acredite o leitor, se quiser, na terceira noite deste ano da graça de 1997 a mesma voz ainda adiava por meia hora a possibilidade de se falar com o distante ente querido. A solução é comprar um aparelho moderno com memória que torne possível a repetição da discagem sem esfolar o dedo. Então, convém desprezar o conselho e não esperar um segundo para discar de novo.
O humor involuntário das vozes anônimas gravadas no computador da Embratel não ocorre exclusivamente nas épocas festivas. Ele resiste, invariável, no dia-a-dia. Em Brasília, por exemplo, quando alguém disca para um número e ele está em comunicação ouve, em português claro, que o aparelho correspondente está ocupado, não o sinal interminente que caracteriza tal ocupação em qualquer país do mundo. Se o usuário não lusófono não entender, é um problema dele. Não é uma piada de português, a língua?
Pois é. Mas o humor involuntário não caracteriza apenas as gravações de computador de telefonista. Incompetente tecnologicamente, a telefonia brasileira é pródiga em piadas. Uma vez, Gilson Rondinelli, gerente de celulares da Telesp, foi perguntando por um repórter da revista Veja por que o infeliz do usuário tem tantas dificuldades para obter a graça de uma linha. Ele respondeu (foi publicado e nunca desmentido) que o felizardo está autorizado a comemorar o fato de conseguir, em média, uma linha a cada cinco tentativas.
No fim do ano passado, foi a vez do Silvio Azambuja, gerente de serviços telefônicos da Embratel em São Paulo. Entrevistado pela Rádio Jovem Pan, ele tentava, bravamente, satisfazer a curiosidade do repórter sobre o que o cidadão podia fazer para ouvir a voz amiga na passagem do ano, uma vez que no Natal tinha sido impossível. O moço aconselhou antecipar ou adiar o telefonema festivo, para fugir do congestionamento. Ao ouvi-lo, imaginei que ele bem poderia ter sido o autor de um faixa que vi estendida numa ponte sobre a avenida Marginal do rio Tietê: Evite esta via das 17 às 20 horas. Seja quem for o autor, o referido não esclareceu em que congestionamento cairia a velhinha de Taubaté que seguisse seu conselho estúpido, mas engraçado.
Comovente, no caso do conselho do rapaz da Embratel, foi sua falta de confiança no próprio poder de comunicação. Pois, se todos que o ouviram resolvessem seguir seu conselho, o congestionamento, antes restrito às proximidades da virada do calendário, seria estendido às vésperas e aos dias posteriores à data comemorada. Mas, pensando bem, talvez ele contasse mesmo com isso, por saber que a ineficiência da telefonia estatizada não se restringe ao excesso de demanda das festas de viva voz.
Seja como for, essas piadas de telefonista demonstram que o sistema estatizado da telefonia brasileira inverteu o sentido da prestação de serviços. Num regime capitalista normal, empresas ganham fortunas com o aumento da demanda dos clientes e seus serviços. No capitalismo de Estado à brasileira, as empresas reprimem a demanda por falta de capacidade técnica para atendê-la e de necessidade de ganhar dinheiro do cliente, pois a viúva sempre garante. Este conto de Natal às avessas comprova a necessidade urgente de privatizar as estatais da telefonia, que, em vez de dar linha, produzem piadas de telefonista.


