PFL dá um tiro no pé
Afinal de contas, qual a altura da fogueira a ser apagada, depois das eleições dos presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados, no dia 14 próximo? Não tão gigantesca, que não possa ser extinta, nem tão diminuta que deva ser desprezada. O episódio acarretará seguramente muito ressentimento aos perdedores. Mas na política, a mágoa de hoje poderá se transformar na alegria de amanhã. Aliás, o caminho da política não é pavimentado apenas com a argamassa da vitória. Derrota gera aprendizagem, reciclagem, readequação de metas e objetivos. A lição de uma provável derrota até que fará bem ao PFL, que, juntamente com o PT, podia ser considerado um partido monolítico e integrado.
Ocorre que o PFL deu um tiro no próprio pé. Quer a presidência da Câmara, mas veta o candidato do PMDB à presidência do Senado. O veto de ACM a Jader se transformou no veto do partido. Essa é a questão substantiva. Tivesse administrado melhor a situação, nem Jader e Aécio teriam suas candidaturas consolidadas. Ou seja, não houvesse o veto que passou a ser interpretado como ingerência nas questões do PMDB o partido poderia facilmente optar por Sarney. E o presidente Fernando Henrique, em nome da união da base governista, deslocaria Aécio Neves.
Inocêncio Oliveira, por sua vez, comete um erro desastrado ao se bandear, nesses dias, para o lado da oposição. O PFL está na ponta direita do arco ideológico. Que lógica é essa de se unir à ponta esquerda, representada pelo PT, senão a lógica do oportunismo, do interesse imediato? E ao usar um estranho palavreado para balizar seu novo discurso, Inocêncio mais se assemelha a um macaco em prateleira de louças.
Os estilhaços dos vidros acabarão se voltando contra ele mesmo, pois quem consegue admitir Inocêncio o mais pefelista dos pefelistas, ou seja, o mais integrado ao cerne do Poder fazendo oposição? Ora, o herói de Serra Talhada, sem a cama governista, não resiste a uma noite de insônia.
O PFL sairá rachado. A banda de Marco Maciel e Jorge Bornhausen deverá ser recompensada, enquanto a banda de ACM poderá ser castigada. Se isso ocorrer, porém, o senador poderá correr o País, desfraldando a bandeira da moralidade, num aceno de que poderá vir a ser candidato a presidente da República. E o que fará a outra banda? O lançamento de Bornhausen para a presidência do Senado vai embaralhar mais ainda a situação. Ele tem condições de somar votos de aliados governistas, além dos votos do PFL.
No tocante ao PMDB, alguns desafios também se apresentam. O primeiro deles é o de tentar administrar com parcimônia uma eventual vitória de Jader Barbalho. Uma vitória tem preço. E esse preço poderá ser a cessão de algum espaço para a banda do PFL mais chegada ao governo. O segundo desafio do PMDB é administrar as divisões internas.
Se Jader perder, a derrota será da cúpula do PMDB. O partido, nesse caso, não terá condições de continuar no governo. Por mais que a cúpula do partido esteja unida, há alguns territórios rebeldes que podem lutar para afastar o PMDB da base governista em caso de derrota. Entre eles, a ala mineira, que está se preparando para receber novamente Itamar Franco, e a ala quercista de São Paulo, que torce discretamente pela derrota da cúpula.
Quanto ao PSDB, a eleição de Aécio Neves para a presidência da Câmara carreará ao partido uma força monumental. Fernando Henrique terá um quadro próximo para levar a cabo os projetos de interesse do governo, fator de fundamental importância para o sucesso da operação eleitoral de 2002. Aécio poderá, ainda, ser um dos fiadores de um grande empreendimento: a fusão de interesses e ações entre o PSDB e o PMDB, projeto, aliás, acalentado por Sérgio Motta, que sonhava com a idéia de formar um imenso partido, juntando os irmãos siameses peessedebistas e peemedebistas.
O PT, por sua vez, lançou Aluízio Mercadante para a presidência da Câmara. Trata-se de uma estratégia para levar a disputa ao segundo turno. Se isso ocorrer, a tendência da maioria dos petistas é apoiar Aécio Neves. Inocêncio, então, poderá dar adeus às armas. Pelo menos, por um período de quarentena.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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