PFL com o boné do MST
Se for possível tirar uma fotografia de Jorge Bornhausen, Inocêncio Oliveira, Lula, Stédile e José Bové (o francês que ajudou a destruir uma plantação de soja no Rio Grande do Sul), juntos, abraçados, todos com o boné vermelho do Movimento dos Sem Terra, reivindicando o calote na dívida externa, aí sim, teremos que aceitar a conversão do PFL em partido esquerdista.
A frase, cometida com alguma ironia, é do secretário-geral da Presidência, Aloysio Nunes Ferreira. Em verdade, no Palácio do Planalto acredita-se que a emoção da campanha para a presidência da Câmara provocou um surto oposicionista no líder do PFL.
A indefinição do PFL, um dos pilares do regime que ajudou a criar quando dissentiu do PDS e votou em Tancredo Neves, assustou o governo federal e irritou FHC. A MP que foi rejeitada em plenário, por intermédio da estranha aliança entre esquerda e PFL, já havia sido reeditada dezenas de vezes. A matéria não é, em si, importante a não ser para os funcionários públicos, que passarão a receber o salário dentro do mês trabalhado. O governo fala em prejuízo de R$ 4 bilhões. Mas o verdadeiro prejuízo tem conteúdo político.
A cúpula do PFL concedeu vastos poderes a seu líder na Câmara para negociar votos que permitam sua eleição. Vale buscar apoio no PT, no PC do B e no PPS. Vale tudo, na verdade. Mas, confundir a eleição no Congresso com temas da política nacional cria um ambiente de incrível constrangimento no Palácio do Planalto.
FHC assegura que jamais se intrometeu na escolha dos novos presidentes da Câmara e do Senado. Fez diversos apelos à unidade e à negociação. E acha que as acusações que tem recebido de estar favorecendo Aécio Neves têm por objetivo apenas encobrir as dificuldades existentes dentro do PFL.
O PFL é, dentre os três integrantes da aliança, o que mais avançou em matéria doutrinária. Realizou dezenas de encontros para discutir suas teses liberais. Ouviu especialistas, chamou técnicos, observadores e pensadores e construiu um programa de governo claro. Tem começo, meio e fim. O discurso dos pefelistas é claro e consistente dentro da lógica do livre mercado, da defesa das privatizações e da redação do tamanho do Estado.
É difícil imaginar um pefelista agredindo a cultura de seu próprio partido. Além disto, há a questão dos cargos: são vários ministros, secretários, indicações técnicas nos mais diferentes organismos.
Em 2002, além da escolha do futuro presidente da República, haverá eleições para deputados e senadores. Mudar o discurso, em Brasília, pode significar a derrota no Estado. E perder cargos significa admitir redução do espaço político. A confusão entre questões internas do Congresso e políticas nacionais aumentou dramaticamente uma situação que antes já era extremamente confusa. E radicalizada.
- ANDRÉ GUSTAVO STUMPF é jornalista em Brasília
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