Petróleo: a busca do preço justo
Desde seu início, em 1960, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) atravessou alguns períodos turbulentos. Os desacordos entre seus membros nunca foram um segredo para os analistas do setor ou os observadores do mercado. Entretanto, no umbral do século XXI, a Opep se mantém intacta e, inclusive, está mais unida internamente, mais organizada e, o que é particularmente significativo, mais transparente.
Em 1998 e no início de 1999, uma combinação de alta produção e baixa demanda causou a queda dos preços mundiais do petróleo. Durante esse período, ninguém escapou das dramáticas consequências do quase desastre econômico. Os membros da Opep, por exemplo, perderam no total, segundo estimativas, US$ 56 bilhões em ingressos com a exportação de petróleo. As companhias petroleiras também foram duramente golpeadas. Ao cair o pico dos ingressos dessas empresas, milhares de seus trabalhadores perderam o emprego, enquanto a falta de liquidez privou a indústria de investimentos importantes.
Um fato inegável emergiu dessa crise: os preços do petróleo podem causar efeitos tão arrepiantes na economia mundial quanto os altos preços. Afortunadamente, a rápida reação da Opep e de vários importantes países produtores que não integram a organização, decidindo por cortes na produção, levou à restauração do equilíbrio do mercado.
Depois de uma terceira rodada de cortes, em março de 1999, os preços começaram a reagir. Esse êxito não teria sido possível sem o apoio dado à Opep por México, Rússia, Oman e Noruega. Resulta evidente que o manejo eficiente do mercado mais a capacidade para antecipar tendências do setor energético são essenciais para a saúde da indústria do petróleo.
Uma olhada na atual situação mostra que a Opep está contribuindo para o fortalecimento da estabilidade do mercado em benefício tanto dos produtores quanto dos consumidores. Quando se analisa o estado do mercado internacional do petróleo é essencial levar em conta uma série de fatores muito importantes. Um deles é a queda estacionária da demanda de petróleo, que ocorre normalmente no segundo trimestre do ano causada pelo fim do inverno no hemisfério Norte. Os analistas estimam que a queda na demanda nesse período é de aproximadamente 2 milhões de barris por dia.
Outro fator decisivo refere-se à situação da economia dos Estados Unidos, que está pisando no freio, embora o efeito exato que isso terá sobre a demanda do produto ainda não esteja claro. Entretanto, como os Estados Unidos são o primeiro consumidor mundial de energia e que gozou de um período de expansão sem precedentes na última década o impacto provavelmente será negativo. Outros fatores importantes incluem a produção dos países que não pertencem à Opep, que aumentou, e a situação do Iraque, que, uma vez resolvida, poderia fornecer petróleo adicional ao mercado.
A mais recente decisão da Opep de cortar a produção em mais 1 milhão de barris diários considerou todos os fatores antes apontados. O objetivo é manter o equilíbrio entre abastecimento e demanda com preços que vão de US$ 22 a US$ 28 por barril, tal como estipula o mecanismo de banda de preços da organização. Isto é, a um nível que é considerado positivo por todas as partes que integram o negócio mundial do petróleo.
Para evitar uma repetição dos contratempos da mais recente queda do preço do petróleo, é necessária uma maior cooperação econômica. Manejar o mercado petrolífero não é uma responsabilidade exclusiva dos produtores. Para ter êxito na estabilização do setor é imperativo que unam seus esforços os produtores, consumidores, companhias petrolíferas e, naturalmente, os governos. Garantir a segurança do abastecimento de petróleo é uma promessa que a Opep nunca deixou de cumprir.
A declaração de Caracas, assinada em setembro do ano passado, durante a Segunda Cúpula da Opep, reconheceu a importância da riqueza petroleira para transformar as economias dos países em vias de desenvolvimento e afirmou que a organização continuará com seus esforços para assegurar os abastecimentos aos mercados e para conseguir preços justos e estáveis, tanto para produtores quanto para consumidores.
Entretanto, isso irá requerer uma quantidade de trabalho duro, compromisso e boa vontade, e que a indústria identifique e tenha em consideração outros fatores que possam ameaçar o boom econômico global, como os altos impostos sobre o petróleo, que representam 60% dos preços ao consumidor.
A especulação no mercado e a carência de capacidade apropriada de refino e distribuição também são problemas importantes que a indústria petroleira mundial tem de enfrentar. A mensagem da Opep, que se manteve coerente durante todos estes anos, é que a cooperação, e não o confronto, é a melhor política para garantir a segurança do abastecimento de petróleo.
- ALÍ RODRÍGUEZ ARAQUE é secretário-geral da Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep) e escreve de Viena (IPS)





