PET, um programa de valor inestimável - Amauri Aparecido Bássoli de Oliveira
PET, um programa de valor inestimável
Amauri Aparecido Bássoli de Oliveira
As chances de que dispomos, dentro das instituições públicas educacionais, para nos realizarmos enquanto educadores não são infinitas e muito longe de uma quantidade adequada. As políticas do setor nunca foram lá essas coisas, sempre exigem demasiadamente sem muito oferecer para resultados que possam ser satisfatórios.
Distante deste quadro estão os Programas Especiais de Treinamento (PETs). Eles são financiados pela Capes (Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, do MEC) e se constituem de doze acadêmicos de graduação e um tutor que se responsabiliza na organização do grupo e no direcionamento das atividades. Os acadêmicos são custeados por uma bolsa, no segundo ano de curso, podendo permanecer até seu final. Eles não podem exercer outra atividade remunerada e devem dedicar ao PET um mínimo de doze horas semanais.
No programa são desenvolvidas atividades de estudos individualizados, mostras de trabalhos, desenvolvimento de pesquisas, atividades culturais, atividades artísticas, participação e organização de eventos científicos, seminários, mostras de trabalhos, cursos de aprofundamento, estudo obrigatório de língua estrangeira e outras inúmeras atividades. No Brasil, existem mais de 300 grupos em pleno desenvolvimento. Eles são detalhadamente analisados e apresentam relatórios anuais à Capes, que avalia os trabalhos.
Na Universidade Estadual de Maringá (UEM) constituímos os primeiros PETs em 91, mesmo o programa existindo há mais de vinte anos. É que nesse ano a Capes ampliou o número de beneficiários com o programa e abriu oportunidades a novos projetos. Com isso, foi contemplado com o PET o curso de Educação Física da UEM. Foi uma grande euforia e desafio, pois estávamos sendo a primeira experiência com PET no Brasil, na área da Educação Física, juntamente com Porto Alegre (UFRGS) e Pelotas (UFP).
Logo fomos tendo a chance de nos inteirarmos de todas as possibilidades de atividades do programa. Pudemos observar com muita clareza como o programa estava sendo útil ao curso de graduação como um todo e aos participantes do programa em especial. Ao curso, por possibilitar que outros docentes integrassem o grupo nas orientações dos acadêmicos, por oferecer aprofundamento de conhecimentos através de cursos; aos demais alunos do curso, pelo apoio que os petianos ofereciam, pelo ponto de encontro que se tornou o ambiente do PET devido a implementação de uma sala acadêmica de constante discussão, dentre outras atividades. Aos acadêmicos petianos, pois todos, indistintamente, tiveram uma formação totalmente diferenciada e voltada para a produção do conhecimento.
Os acadêmicos que vivenciaram a experiência se destacam e enfrentam desafios acadêmicos sem hesitação. Hoje, podemos testemunhar, com muito orgulho, que grande parte de nossos ex-petianos já ingressaram em programas de pós-graduação lato-sensu e constituem quadros docentes de algumas universidades públicas e privadas. São profissionais que tiveram a chance de se aperfeiçoar e não a largaram e hoje, tenho certeza, valorizam a oportunidade que tiveram em suas graduações com os grupos PETs, pois foi a estrada do sucesso que hoje os tem como profissionais.
Para os docentes que tutoram os grupos acredito que, apesar de todo o trabalho que têm (falo como ex-tutor), o êxito de seus petianos é a mais alta láurea que um docente pode esperar. Testemunhei este fato em agosto, quando uma ex-petiana defendeu sua dissertação de mestrado na Unicamp no Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação Física. Foi de fato um momento de realização relembrar que ela havia começado seus passos acadêmicos no início de 93 no PET da Educação Física conosco. Foi também muito prazeroso verificar que no último concurso público para ingresso de docentes no Estado, que a grande maioria de nossos ex-petianos conseguiu se colocar entre os primeiros classificados. Isto gera um retorno imediato à sociedade, pois são profissionais melhor qualificados que irão multiplicar em muito o investimento recebido.
Mas, muito mais do que ingresso em pós-graduação, aprovação em concursos estão os sujeitos que participam desses programas. São adolescentes ao ingressarem e adultos ao se desligarem. Nós temos a oportunidade de trabalhar quase quatro anos numa formação aprofundada que vai desde a discussão mais elementar de um filme até as teorias educacionais e sociais, além de outras. Que outro espaço teríamos para isso dentro do sistema educacional brasileiro?
Enquanto ex-tutor quero deixar o meu testemunho de que nesses meus vinte anos de profissão ainda não havia tido a chance de me realizar profissionalmente como com o trabalho que desenvolvemos junto ao PET da UEM. E isso fiz questão de documentar no último relatório que enviei à Capes em 95, quando tive que me afastar para avançar em meus estudos.
Mas o nosso governo entende que esse tipo de experiência é limitada e não propicia avanços para a sociedade. A relação custo-benefício não estaria de bom tamanho. É lamentável e só podemos considerar tal extinção como mais um desvio desse governo neoliberal. A educação para qualquer povo é investimento, é qualidade de vida, é realização coletiva e avanço social. É difícil demais acreditar que podemos transformar nossa sociedade sem educação. A extinção dos PETs será uma perda irreparável.
- AMAURI A. BÁSSOLI DE OLIVEIRA é professor-doutor-adjunto da UEM, em Maringá





