Péssimos e-negócios - J. Roberto Whitaker Penteado
Péssimos e-negócios
J. Roberto Whitaker Penteado
Finalmente a revolução tecnológica chegou ao Brasil só que é contra a gente. O jornalista Artur Xexeo escreveu, na semana passada, bem-humoradamente, na sua coluna do JB, sobre o que chamou de uma senha para a modernidade. Comentando sobre a forma como os cartões de crédito, as empresas aéreas, companhias telefônicas e outras atividades substituíram o atendimento humano ao telefone por mensagens gravadas, para economizar tempo e pessoal, pois um saldo devedor, por exemplo, pode ser dado pelo computador, sem necessidade de interferência de seres humanos, pelo menos, no outro lado da linha, Xexeo reclama: Do lado de cá, continua existindo um ser pensante, o que torna essas conversas automatizadas uma das situações mais estressantes do mundo moderno.
O jornalista relata sobre sua consulta a uma empresa aérea sobre plano de milhagem, utilizando o telefone 0800, em que, depois de discar o número, teve de digitar os nove algarismos do cartão, apenas para ouvir uma voz gravada que lhe deu outras opções de digitar os números de 1 a 7, para obter informações que absolutamente não desejava. Optando por entrar em contato com a central de reservas, foi-lhe ordenado que digitasse uma senha que não tinha e a ligação foi, naturalmente, interrompida. Tentou de novo o número 7, para solicitar uma nova senha, e foi-lhe exigido... digitar a senha. Para conseguir uma nova senha, precisava digitar a senha.
Xexeo encerrou sugerindo aos cartões de crédito, empresas aéreas, companhias telefônicas e todos aqueles que usam mensagens gravadas que criem um algarismo para a gente desabafar. Do tipo se você deseja xingar a minha mãe, digite 8. Com livre acesso. Sem senha.
Mas acho que Xexeo está sendo é generoso em demasia. Depois de uma bem-sucedida introdução das ATMs (Automatic Teller Machines, as agências eletrônicas), que substituíram, com muitas vantagens, os despreparados e mal-humorados atendentes humanos, os bancos, principalmente, e agora as outras empresas a que se refere AX voltam a colocar em grande risco as suas relações com os clientes pelo mau uso das novas tecnologias.
Coleciono experiências iguaizinhas às de Xexeo e muitas bem piores, algumas no exterior. Com o 0800 de um banco, aconteceu-me coisa muito parecida: a moça pediu-me que digitasse a senha e, como respondi que o meu telefone de casa era de disco, ela sugeriu que eu refizesse a ligação, de algum aparelho com teclas... Além disso, como sou um de 30 mil brasileiros que optaram por ter um computador Macintosh, meu banco principal imposto pela empresa em que trabalho simplesmente não me aceita on-line. Com os outros dois, levei dois meses negociando; com um, pessoalmente e pelo telefone; e com o outro ainda estou lutando para conseguir fazer minhas pequenas transações on-line. Conversando com meu gerente pessoal entre quatro paredes, ele me confessou seu horror ao pessoal da informática. Eles não entendem nada de atendimento aos clientes e só querem fazer gracinhas que ficam piscando na tela do computador e não facilitam nada, nem para os clientes, nem para nós. Assino embaixo.
Dia desses fui assistir à palestra de uma expert americana em e-business, promovida pela agência Artplan. A mulher disse com todas as letras que, nos Estados Unidos, muitas empresas introduziram o atendimento eletrônico com a idéia de cortar custos e até procuram limitar o acesso dos clientes, dificultando, por exemplo, o recebimento de e-mails. Isso é um erro, criticou. Os novos canais de comunicação permitem melhorias no atendimento através de mais feedback dos clientes, com mais rapidez e devem ser usados como instrumentos para aumentar os negócios e não para reduzir custos.
É engraçado como as coisas vão acontecendo, no mundo dos negócios, aqui e em países do Primeiro Mundo, como se uma obra como Real Time Marketing, de Regis McKenna, não tivesse sido escrita há cinco anos alertando exatamente para esse perigo: de que as novas tecnologias sejam transformadas em obstáculos novos à tarefa simples de procurar conquistar e manter os clentes, por pura ignorância e preguiça. Resta o que talvez seja um último consolo: se é verdade que a competição entre as empresas vai ser maior e não se solidificarem ainda mais os cartéis e as reservas de mercado as oportunidades estão escancaradas para aqueles que quiserem, de fato, tratar os clientes como gente e gente importante.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é professor e dirigente universitário no Rio de Janeiro





