Em 1989, no auge da primeira eleição direta para presidente da República depois do regime militar, Fernando Collor de Mello disparava como o favorito nas pesquisas de intenção de voto e anunciava aos adversários: não participaria de debates eleitorais promovidos por emissoras de rádio ou televisão. Foi um escândalo! Afinal, era um absurdo que um candidato à presidência da República, especialmente o líder nas pesquisas, se recusasse a debater seu programa de governo.
Na verdade, seus adversários, especialmente Luiz Inácio Lula da Silva e Leonel Brizola, hoje juntos na mesma chapa, viam num eventual debate público a chance de desafiar, ou mesmo desmascarar Fernando Collor, e assim reduzir seu favoritismo.
O resto da história é conhecido: Collor não debateu no primeiro turno, passou fácil para o segundo turno, jogou pesado na propaganda eleitoral gratuita, participou de dois debates com Lula e foi eleito. Até hoje, aliás, o eleitor se pergunta qual o trunfo que Collor tinha no segundo debate a ponto de Lula não entrar em campo e perder ali as eleições.
Cinco anos depois, o franco favorito, Fernando Henrique Cardoso, adotou a estratégia de Collor, recusando-se a debater com os adversários suas idéias e seu programa de governo. A história se repete agora e o péssimo hábito de fugir dos debates - com certeza para não se expor a críticas e evitar desgastes na imagem - está disseminado pelo País.
O presidente Fernando Henrique já anunciou que também este ano não participará de nenhum debate - a não ser num eventual mas aparentemente pouco provável segundo turno. Em Minas, o ex-presidente Itamar Franco, candidato ao governo estadual, não foi ao debate promovido pela TV Bandeirantes na noite de segunda-feira passada. No Rio, o ex-prefeito César Maia também se recusou a participar do que ele chamou de ‘‘circo’’. E em Brasília, os candidatos Joaquim Roriz e Luis Estevão igualmente evitaram o enfrentamento nos debates promovidos pela TV Brasília.
Todos eles têm um ponto em comum: estão bem situados nas pesquisas eleitorais, alguns até com chances de vencer já no primeiro turno, como o próprio presidente. Mas, assim como Collor, não querem correr o risco de se submeter ao bombardeio de críticas - justas ou não - dos adversários em situação menos confortável nas pesquisas.
Evidentemente, é um direito que eles têm, dentro da estratégia de marketing de cada campanha e de cada candidato. Mas e os eleitores como ficam? Será que não temos o direito de saber se os programas de governo de Fernando Henrique, Roriz ou Itamar são realmente viáveis ou se esses candidatos têm capacidade de responder às críticas e provocações dos adversários?
Um bom governante deve, acima de tudo, atender aos anseios da sociedade que o elegeu e, para isso, é preciso ouvir, trocar idéias, debater, criticar e ser criticado, enfim, exercitar a democracia. Antes e depois das eleições.
Desde o pioneiro debate eleitoral entre John Kennedy e Richard Nixon, nos anos 60, que definiu aquela eleição para presidente dos Estados Unidos em favor do primeiro, a televisão deixou de ser mero entretenimento, passando a prestar um serviço fundamental para o cidadão escolher seus governantes.
Mas há quem veja nos debates públicos apenas uma ameaça à sua eleição e prefira o conforto de um estúdio exclusivo, onde não se debate nada. Uma péssima lição de democracia.
- KIDO GUERRA é jornalista em Brasília

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