As pesquisas eleitorais, segundo a definição dos sociólogos, são o retrato de um dado momento. Não são capazes de prever a vitória de qualquer candidato, apenas mostram os anseios e desejos da sociedade naquele instante. A partir da conjugação destes e de outros fatores, os candidatos orientam – ou deveriam orientar – suas campanhas na tentativa de encontrar respostas ou soluções que satisfaçam as questões postas pelos eleitores.
Ninguém duvida do seu valor científico e quando realizada através de critérios técnicos rigorosos, torna-se fundamental como pêndulo de avaliação. Acontece que as pesquisas adquiriram uma importância tão grande no processo eleitoral que deixaram de ser um mero instrumento de trabalho para se transformar numa verdadeira arma, suficiente para derrubar ou impor candidaturas goela abaixo. Seus resultados são capazes de induzir uma grande parcela do eleitorado a uma escolha meramente estética, onde se vende a imagem plástica e não o conteúdo ideológico ou programático dos postulantes.
Não é preciso relembrar nem citar exemplos ainda recentes no País e que culminaram com uma grave crise política. Assim, as pesquisas passaram a ter uma outra conotação: a de servir como parâmetro para maquiar o candidato de tal forma que pareça aos olhos dos eleitores o protótipo perfeito e melhor acabado para governar em nome do povo.
Nesta fase entram em cena os chamados marqueteiros – uma espécie rara de profissionais que acreditam ter a capacidade de fazer surgir do nada o poder quase absoluto em criar fantasias e ilusões nas telinhas. Pouco importa o que pensam ou o que pretendem os candidatos; o essencial neste momento é fazer deles uma mercadoria vendável, embalada da melhor forma para ser consumida no dia das eleições. A ressaca do day after não interessa, é tudo uma questão de deixar o tempo passar e o organismo social acaba por digerir o que foi consumido nas urnas. Esta prática se sucede em todas as instâncias da vida pública: do vereador ao presidente da República.
A dificuldade na solução deste caso reside no fato de que é impossível, até mesmo pelas regras do jogo democrático, impedir a divulgação de pesquisas. A sociedade tem direito a toda e qualquer informação, afinal, ela – a informação – é parte fundamental no processo de escolha e decisão dos eleitores. O ideal seria que o eleitor fizesse sua opção consciente das propostas e projetos de cada postulante. Aí sim, a pesquisa seria uma forma de mensurar a aprovação ou rejeição do programa partidário.
Da mesma forma que não se pode influir na decisão de como apresentar estes programas. O formato é – e aí sim deveria ser a tarefa maior dos homens de marketing – uma questão de criatividade na concepção da maneira de melhor transmitir as mensagens ao telespectador. Mas não são apenas os políticos que ganham ou perdem com as pesquisas. A cada nova rodada de consultas que se sucedem na eleição presidencial, quando o candidato petista Luiz Inácio Lula da Silva dispara na liderança, os consultores financeiros – outra figura abstrata – atribuem ao Brasil um risco maior nos investimentos, transformando a economia num quebra-cabeça ainda mais complexo. Neste caso, o jogo de interesses dos grupos econômicos pode resultar em lucros de milhões de dólares numa única tacada, apenas especulando com hipóteses.
Querer culpar as pesquisas pelo baixo nível dos programas eleitorais faz lembrar a fábula do cidadão que, ao chegar em casa, encontra a mulher nos braços de outro no sofá da sala. Em represália, manda tirar o móvel do cômodo. Elas devem sim ser aprimoradas cada vez mais para buscar informações precisas em graus cada vez mais detalhados. Enquanto isso não acontece, as discussões sobre temas relevantes e que fazem parte do dia-a-dia da população são relegadas a um plano inferior e a disputa se transforma num mega show de imagens, cores, luzes e poucas ações.
- RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba

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