Pesquisas e eleições
Pesquisa CNT/Vox Populi divulgada ontem mostra que a rejeição ao governo do presidente Fernando Henrique Cardoso aumentou de 59% para 65% na comparação com o levantamento realizado em agosto. Este índice foi atingido no item da pesquisa que avalia o governo como ruim ou péssimo. A avaliação positiva, de ótimo ou bom, caiu de 12% para 8%. Analisando os números, o presidente da CNT, Clésio Andrade, disse que a popularidade do presidente ‘‘chegou ao fundo do poço’’. Entretanto, em sua avaliação, a tendência nas próximas pesquisas é de que a rejeição ao governo diminua porque, conforme entende Andrade, o ciclo de desgaste da imagem do presidente chegou ao fim, e os últimos fatos mostram que a tendência é de recuperação. Andrade disse que a economia começa a dar sinais de recuperação, a autoridade do presidente foi restabelecida aos olhos da população e o PPA (ou Avança Brasil) proporciona uma esperança, ainda que os efeitos só possam vir a ser sentidos a partir de 2000. Ademais, embora os números possam ser apontados como indicadores de tendências, podendo até servir como balizas para o presidente (e também para governadores e prefeitos) diante da reação popular, é necessário insistir em que um governo não pode funcionar como um programa de TV, muito pressionado pelos números dos institutos de pesquisa.
Ainda que tenha um compromisso básico em relação ao povo e aos seus sentimentos, o que norteia a ação do governo não pode ser a reação revelada através de pesquisas, por mais acuradas ou confiáveis que sejam. Não é apenas o fato de que se pode considerar que pesquisas podem ser falhas, mas de perceber que o trabalho do governo tem um compromisso que por vezes não coincide com a reação imediata do povo. Muitas vezes, uma administração tem de adotar medidas amargas, até impopulares. Faz parte mesmo do percurso que o governo atravessa, em determinadas fases de sua existência. Caso o governante passe a balizar seu trabalho pelos resultados das pesquisas mensais, não só corre o risco de passar a atuar em uma verdadeira gangorra como pode perder até de vista sua missão mais ampla, de longo prazo, na consecução dos objetivos maiores da coletividade.
Como se repete constantemente, existe apenas uma ‘‘pesquisa’’ que tem valor pleno na democracia: a eleição. Através do voto, o povo exerce diretamente seu poder e define suas preferências. E, adicionalmente, ao votar, o eleitor confere ao escolhido um prazo para realizar o seu trabalho. É o que aconteceu há um ano, quando os brasileiros foram às urnas para eleger presidente e governadores. A reeleição conferida a Fernando Henrique Cardoso, como também a muitos governadores, representa o maior e mais concreto dos avais que se prestam a um político. Naturalmente, e como tem sido analisado fartamente, existem circunstâncias que dificultaram a ação do governo e que produziram a atual situação que levou a esta queda de popularidade detectada nas pesquisas. Acontece que até mesmo o julgamento do trabalho do Executivo federal não é feito mensalmente ou em função das pesquisas. Seguramente, o presidente acompanha os índices (e pode até sentir pela reação da imprensa, pelas manifestações populares) e percebe a insatisfação crescente.
Entretanto, o que é discutível é que estes resultados venham a servir como base para apelos que contrariam a própria essência do regime. O governo federal ainda não atravessou sequer um quarto do mandato conferido pelo povo. Está na fase da queda de prestígio. Pode superá-la. E se não o fizer, dentro de três anos, nas eleições de 2002, vai ter a resposta do levantamento de opinião que vale, a decisão das urnas.

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