Pesquisas & votos
Excelência em vinhos, queijos, arte, cultura, a França passa agora a exportar lições diretas aos políticos brasileiros. A primeira delas é olhar as pesquisas eleitorais com todo o cuidado. Nenhum instituto francês captou que a extrema-direita, representada por Jean-Marie Le Pen, estaria no segundo turno. Os próprios magos brasileiros no assunto admitem que os institutos franceses falharam. Especialmente, nas consultas mais próximas do pleito, quando a maioria do eleitorado começa a decidir seu voto.
Por isso, um aviso a quem votar no Brasil, daqui a cinco meses e 12 dias: não é hora de ficar muito preocupado com o sobe-desce dos candidatos. Aliás, as pesquisas servem agora para que os partidos verifiquem tendências na hora de escolher o seu representante na eleição. Ajudam ainda o chamado mercado os megainvestidores da economia a sinalizar suas preferências.
Há três dias, por exemplo, o mercado mostrou que o ex-governador do Rio Anthony Garotinho (PSB) não é o galã que eles querem ver no papel principal da política. Bastou um boato de que ele teria ultrapassado o candidato do PSDB, José Serra, na pesquisa Vox Populi, para a Bolsa de Valores de São Paulo cair e o dólar subir. Esse é um dos principais objetivos das pesquisas a quase seis meses da eleição.
Na França, entretanto, tiveram outra utilidade. Mostraram que o cidadão comum anda por aqui com a política. Lá, onde é permitido dizer não voto e ponto, 28% dos franceses decidiram aproveitar o domingão eleitoral de outra forma. No Brasil, nem é preciso pesquisa para saber que, se o voto não fosse obrigatório, muitos eleitores seguiriam o exemplo francês. Quando o brasileiro vê na TV o descaso de alguns políticos para com o dinheiro público, sobra mau humor para todo lado.
Na França, a resultante do desgaste do poder público, associada à abstenção, teve como resultado uma extrema-direita no segundo turno. E por erros da própria esquerda. Especialista em pesquisas, Antônio Lavareda, da MCI, lembra que, em 1988, François Mitterrand, do mesmo Partido Socialista de Lionel Jospin, obteve 34,1% dos votos. Em 1995, o PS ficou com 23,3% na sucessão presidencial. Agora, Jospin fica aquém dos 18%. A direita de Le Pen obteve 15,1% em 1995. Ou seja, cresceu menos de três pontos percentuais entre uma eleição e outra.
O exemplo francês nos mostra que eleição não se ganha apenas com acertos. Os erros do adversário são fundamentais para o sucesso de terceiros. Veja o caso de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e José Serra (PSDB). Estão tão igualzinhos nos discursos que ninguém mais sabe quem é governo e quem é oposição. Está sobrando para Anthony Garotinho, o Le Pen tupiniquim que o mercado não deseja ver no poder.
Vai que dá uma zebra e ele chega no segundo turno... Mas isso, por enquanto é achômetro e pesquisa. E, no caso das pesquisas, se deu errado até na terra dos iluministas, nada impede que se erre aqui também.
DENISE ROTHENBURG é jornalista em Brasília





