A universidade brasileira está caminhando para mudanças de seus paradigmas, valores e práticas. Tais mudanças terão implicações sobre a sociedade em seus aspectos culturais, sociais e econômicos. Por esta razão, é urgente a necessidade de debates, discussões e, principalmente, de reflexões. Não se trata de mudanças curriculares ou de alterações nos planos dos cursos ou nos seus fundamentos didáticos e científicos. São mudanças filosóficas, implantação de novas concepções e atribuições de competências para a universidade brasileira.
As atuais teorias e paradigmas que regem o sistema de ensino universitário, mostram-se, por assim dizer, ''envelhecidos'' ou estão desconectados da realidade. A universidade deve assumir os problemas da sociedade, desenvolvendo estudos e reflexões sobre as questões cruciais que atingem diretamente a população e encaminhar os equacionamentos mais adequados para reduzir ou superar tais problemas. O distanciamento que há entre a universidade e a sociedade, e a quase ausência de interlocução entre ambas não tem permitido a construção de projetos que dêem conta da magnitude dos problemas do Brasil.
As inovações que as universidades têm implantadas nos últimos 10 anos não foram e não são suficientes para torná-las mais eficientes e valorizadas. A qualificação, a capacitação de docentes, a instalação de novos e sofisticados laboratórios, a atualização curricular e o aumento das aulas práticas, nem sempre se traduzem em melhoria na formação do aluno. É certo que todas essas inovações são boas e bem-vindas, mas contribui apenas para uma elevação na qualidade do ensino. É por essa razão que algumas universidades, principalmente as particulares, vêm apostando nessa estratégia.
Um dos problemas no ensino universitário está nos conteúdos de formação da clientela, principalmente por ausência de conteúdos culturais nos diferentes cursos universitários e em quase todas as áreas do conhecimento. Por exemplo, as disciplinas de formação cultural não são incluídas nas grades curriculares dos cursos de Economia, Administração, Direito, Ciências Contábeis, e muito menos ainda em cursos das áreas biológicas e exatas.
O padrão da escola superior no país, historicamente consagrou os cursos de Medicina, Direito e Engenharia para atender a uma elite dominante com concepções conservadoras em relação à cultura e à política, sem se preocupar com os problemas sociais do Brasil. O ensino universitário ao longo dos últimos 40 anos buscou estruturar cursos para formar apenas profissionais liberais para um mercado de trabalho restrito.
A prioridade é o ensino e não a pesquisa o que limita o potencial do aluno nessas áreas. Na escola o aluno recebe apenas a transmissão de conhecimentos, não vivenciando a experiência da pesquisa. Aqui, há uma lacuna na formação intelectual dos universitários. Assim, observa-se que as universidades estão estruturadas com um padrão pouco dinâmico e limitado, em que os jovens são instrumentalizados em cursos com estruturas curriculares engessadas, conforme uma idealização estabelecida sobre os campos profissionais, sem levar em conta que hoje o desenvolvimento da educação deve se processar de modo integral e interdisciplinar, fundamentalmente em razão de uma cultura globalizada, como bem assinalou Renato Ortiz em seu livro, ''Mundialização e Cultura'', São Paulo: Brasiliense, 1998.
A universidade precisa repensar suas funções e competências, principalmente em relação à formação científica e humanística dos jovens, através de um ensino crítico, de um aprendizado em pesquisa e também de uma disseminação cultural que abra horizontes ao longo das suas vidas. É essa a perspectiva que de fato define e consagra o conceito de universidade.
PAULO ALVES é doutor em História pela Universidade de São Paulo e professor-adjunto no departamento de História da Universidade Estadual de Londrina

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